Estudos da LCA e do IPC Maps, além de análise da ESPM, mostram efeitos regressivos da tarifa e mudanças no comportamento do público

Um ano após a criação da chamada “taxa das blusinhas”, que aplicou alíquota de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, o debate sobre seus efeitos voltou ao Congresso. A política, que buscava proteger a indústria e o varejo diante do avanço de plataformas internacionais, foi instituída em um momento de forte consumo doméstico. Segundo o IPC Maps, as famílias devem gastar R$ 269 bilhões com moda até o fim de 2025, alta de 11,5% sobre o ano anterior. Mesmo assim, o varejo físico registrou queda de 4,6% no número de lojas e fechamento de mais de 74 mil Microempreendedores Individuais (MEIs), indicando perda de capilaridade.

Impacto no consumo

O estudo ‘Taxa das blusinhas - Resultados econômicos para população e governo’, da LCA Consultoria, mostra que a tarifa reduziu o acesso a produtos e concentrou efeitos sobre as classes C, D e E, responsáveis por 70% da arrecadação. A queda imediata de 43% nas importações por remessa e o aumento da desistência após ver o preço final — de 35% para 45% — revelam um ajuste rápido no comportamento de compra.

Para a professora Annaysa Kamiya, do curso de administração da ESPM, o movimento pode ser explicado pela economia comportamental. Segundo ela, “o preço anterior, sem o imposto de 20%, funcionava como ponto de referência para o consumidor. A imposição da taxa faz com que o novo preço seja percebido como uma perda, pois o consumidor sente que está pagando mais do que o esperado”. Essa percepção ativa a aversão à perda, tornando a compra menos atraente e contribuindo para a retração nas importações.

Annaysa acrescenta que a contabilidade mental também ajuda a explicar o fenômeno, já que o consumidor registrava essas compras como um “bom negócio” em função do preço baixo e da variedade. Com a tarifa, o produto passa a ser percebido como “prejuízo” ou “mau negócio”, anulando o benefício percebido. Outro mecanismo é a dissonância cognitiva: “o consumidor enfrenta o dilema entre querer o produto e perceber o preço como desvantajoso. Para resolver o desconforto, ele opta por desistir”. Para mitigar esse comportamento, a professora aponta que marcas precisam reforçar comunicação de custo-benefício, disponibilidade e variedade.

Política pública

A LCA também investigou o efeito sobre o emprego. Nos 12 meses após a implantação da taxa, o crescimento nos setores supostamente beneficiados ficou em 0,97%, abaixo da média nacional de 3,04%. A consultoria conclui que a política não gerou estímulos relevantes e coincidiu com perda de arrecadação estadual via Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), apesar do ganho bruto de imposto de importação.

Enquanto isso, o consumo de moda avança. Segundo dados da IPC Maps, o vestuário confeccionado deve movimentar R$ 182,7 bilhões em 2025, com destaque para São Paulo (R$ 65,7 bilhões), Minas Gerais (R$ 28,8 bilhões) e Rio

de Janeiro (R$ 19 bilhões). Para os especialistas, o crescimento do segmento convive com um ambiente de competição ampliada: plataformas internacionais seguem relevantes ao oferecer variedade e preços competitivos, enquanto o varejo físico encolhe em número de lojas.

A percepção de justiça tributária também entra em jogo. Annaysa afirma que “a medida é classificada como um imposto regressivo, que onera mais as camadas mais pobres”. Esse efeito impacta tanto a reputação das marcas quanto sua sustentabilidade financeira. “Com menor fidelização, as marcas precisam investir mais em aquisição de clientes”, explica.

No debate legislativo, representantes da indústria argumentam que a taxa contribuiu para estabilizar o faturamento e ampliar a arrecadação federal. Já entidades do comércio digital defendem que a tarifa restringe acesso e inibe inovação. Para Annaysa, políticas mais equilibradas poderiam ocorrer. “A proposta mais adequada seria a isenção do Imposto de Importação acompanhada pela cobrança do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) sobre as importações, modelo já adotado em muitos países.”

A discussão ocorre em um setor que cresce em valor, mas perde presença física e enfrenta competição global. Com dados que apontam impactos distintos sobre consumo, varejo e arrecadação, a revisão da tarifa volta ao centro das decisões econômicas que moldam o acesso a produtos e o futuro do comércio brasileiro.

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