Uso de aplicativos para simular presença amplia dilemas éticos e riscos; especialistas debatem impacto e deveres do mercado neste contexto

Em 2013, o primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror, ‘Be Right Back’ (Já Volto), causou estranheza ao retratar a história de uma viúva que ‘recriou’ seu falecido marido usando um avatar digital.

Refutar a ideia de que a vida imita a arte nunca fez tanto sentido, e assim como avaliou Oscar Wilde “a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida”. À época, o enredo que parecia bizarro, se tornou realidade em 2026: as pessoas estão usando inteligência artificial para recriar entes falecidos.

Já na reta final de 2025, uma tendência um tanto mórbida conquistou a internet e pessoas têm recorrido a ferramentas que prometem simular conversas e interações com quem já morreu, com recursos visuais, vale destacar. Um dos exemplos que entrou no radar é o 2Wai, aplicativo que usa IA para criar ‘HoloAvatars’ e permite interações ao vivo com um avatar digital.

Disponível, por enquanto, apenas nos Estados Unidos, o app pede que o usuário grave um vídeo diretamente na plataforma, por cerca de três minutos, para então gerar o avatar. Quando a pessoa já faleceu, o sistema só pode ser criado se houver um vídeo gravado antes da morte, com a pessoa falando e se movimentando.

O fenômeno não se limita à curiosidade tecnológica. Uma pesquisa da ESPM indica que 25% dos brasileiros aceitariam conversar com avatares realistas de entes falecidos, e o mesmo percentual afirma que se sentiria confortável com essa experiência. O levantamento, conduzido pelo Centro de Estudos Aplicados de Marketing (CEAM), ouviu 267 participantes que perderam entes queridos recentemente (nos últimos dois anos) e buscou entender como o emprego da IA começa a integrar processos de despedida, memória e conforto emocional.

Quase 40% consideram que os thanabots - serviços que simulam conversas a partir de dados, imagens e registros de voz, têm realismo suficiente para promover interações simbólicas e críveis; 25% veem benefícios emocionais na prática. Flávio Santino Bizarrias, pesquisador do estudo e coordenador do CEAM, observa que o levantamento sugere a expansão de uma ‘tecnologia emocional’ no imaginário do público.

Ao mesmo tempo, um terço dos participantes ainda se sente assustado com a ideia da morte, indicando que a abertura à inovação e o desconforto com a finitude convivem. “A pesquisa mostra que os brasileiros estão mais dispostos a discutir temas que antes eram evitados e a incorporar a inovação de forma mais humana. Essa abertura revela um novo campo de reflexão”, explicou.

A neurocientista Carol Garrafa aponta que a procura por IA em situações de fragilidade não começa pela tecnologia, e que a busca por conforto emocional em ferramentas de IA “não é uma busca por tecnologia, é uma busca por presença, escuta e cura emocional”. Ela afirma que, em momentos de dor, perda ou fragilidade, a previsibilidade da resposta acaba virando um fator de alívio imediato.

Carol Garrafa: “Essa relação, embora reconfortante, não é sustentada na realidade” | Imagem: divulgação

Executivos do ecossistema de comunicação e dados também apontam elementos que ajudam a explicar a formação rápida de vínculos. Mauro Rabello, VP de business e development na Innocean Brasil, fala que a chave está na forma como interpretamos consistência e linguagem.

“Primeiro, vale separar tecnologia de consciência. IA não pensa, não sente, não tem intenção. Ela apenas calcula. Opera em cima de padrões estatísticos de linguagem e nos devolve respostas com fluidez e coerência”, diz ele, que no caso de avatares de entes queridos, acrescenta: “Não estamos falando de tecnologia, mas de carência. O que a IA devolve não é a pessoa – mas fragmentos narrativos, vocabulário, entonações, lembranças organizadas num ‘jeitão’ que o cérebro reconhece. E, quando isso encontra saudade, o resto é preenchido automaticamente.”

Mauro Rabello: “Vale separar tecnologia de consciência. IA não pensa, não sente” | Imagem: divulgação

Do lado mais técnico, Denys Fehr, CEO da Just a Little Data, consultoria de Data Intelligence do ecossistema Biosphera.ntwk, afirma que o vínculo nasce da experiência de interação, não de ‘emoção da máquina’. “Do ponto de vista técnico, a rápida criação de vínculo emocional com ferramentas de IA está muito mais relacionada à experiência cognitiva de interação do que a qualquer forma de emoção real da máquina”, explica.

Ele aponta fatores como ‘redução de fricção emocional’ e previsibilidade. “A IA não julga, não interrompe, não demonstra impaciência e está sempre disponível. Tecnicamente, isso cria um ambiente de interação previsível, seguro e responsivo”, detalha.

Denys Fehr: “Está muito mais relacionada à experiência” | Imagem: divulgação
Leia a íntegra da matéria na edição impressa de 26 de janeiro.

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