Nesta terça-feira (28), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) realizou em São Paulo, a 4ª edição do Data Day, evento dedicado ao uso de dados e inteligência artificial no jornalismo. Com o tema “Estratégias de dados e IA que dão certo”, o encontro discutiu ferramentas, tendências e aplicações práticas que vêm transformando a indústria de notícias no Brasil e no exterior. O evento aconteceu na ESPM Tech e trouxe um debate completo com profissionais de veículos de comunicação, entidades do setor e universidades. A programação foi conduzida pela diretora de mercado leitor do Estadão, de São Paulo (SP), Débora Huertas, que recebeu o presidente da ESPM, Dalton Pastore, e o presidente da ANJ, Marcelo Rech, para as boas-vindas.


Google e a IA
Durante o primeiro painel, o Google abordou suas novas ferramentas e tendências para a inteligência artificial, através da participação de Fabiana Zanni, head de parcerias com notícias, com a mediação de Elaine Silva, gerente-executiva de produto digital da Rede Gazeta, de Vitória (ES), e coordenadora do comitê de estratégias digitais da ANJ. De acordo com Fabiana, que trouxe os novos insights da empresa baseado nos dados de 2025, mais de sete mil empresas de notícias e comunicação estão engajadas em parcerias e com os programas de IA do Google, sendo 2.800 parcerias comerciais, 2,5 milhões de profissionais da comunicação já são treinados com essas ferramentas e 120 países já as utilizam, com destaque para o Brasil, um dos países mais engajados no uso da inteligência artificial.
“Nos 20 anos que o Google trabalha mais próximo ao ecossistema de notícias, passamos por um processo muito longo de transformação de tudo que oferecemos para as empresas de comunicação ao redor do mundo. Começou muito focada no Google Notícias e foi se transformando de acordo com as novas demandas. Tudo que fazemos tem a ver de como nossos usuários consomem nossos produtos e informações que circulam nos nossos produtos e como podemos aprimorá-los de acordo com esses comportamentos. Estamos falando de mais de cinco anos de mudança destes comportamentos, que se acelerou drasticamente com a chegada da IA, que chega de forma intensa e robusta, mudando a forma como as pessoas consomem conteúdo”, conta Fabiana.
O Google já atua na transparência do conteúdo para os veículos, através de padrões de hadware e software para garantir que a origem da mídia garanta a privacidade do usuário, além de recursos técnicos de transparência diretamente na suíte, como por exemplo o SynthID, uma tecnologia avançada do Google DeepMind que insere marcas d’água digitais invisíveis para identificar conteúdo gerado por inteligência artificial em imagens, vídeos, áudios e textos, e o Gemini, que auxilia na capacitação do público em geral. Um dos destaques é o fato de que, pela primeira vez, as redes sociais estão na liderança como a principal fonte de informação onde as pessoas buscam notícias. Isso está atrelado ao fato dos jovens, hiperconectados, sentirem maior necessidade de constante evolução, com 29%, seguido pelo search do Google, com 25%.
O relatório também trouxe insights sobre as novas ferramentas de IA que chegaram ao Google em janeiro deste ano, o AI Overview (que gera resumos instantâneos no topo da busca padrão do Google e o AI Mode (que funciona como um ambiente de chat conversacional contínuo). A diferença principal entre eles está na interatividade, o primeiro sendo estático e pontual, enquanto o segundo permite perguntas em sequência mantendo o contexto original. O AI Overview registrou mais de 2.5 bilhões de usuários mensais, enquanto o AI Mode registrou mais de 1 bilhão de usuários mensais.
Em maio deste ano, a empresa trouxe novidades, como o selo ‘Altamente Citado’, que facilita a identificação de artigos que outras matérias já citaram, ajudando o usuário a encontrar reportagens originais, além de também indicar quando um artigo faz referência a uma fonte altamente citada. Também trouxe o destaque dos conteúdos de assinaturas, permitindo o usuário a vincular suas assinaturas e receber respostas personalizadas com base nos conteúdos que assina. O Google também apresentou um novo recurso de perfil que ajuda criadores e jornalistas a moldar sua presença no search e no discover, com uma página compartilhável e personalizável que reúne todas as suas contas de redes sociais, publicações e links em um lugar só.

O papel da Gen Z
O evento também foi palco de uma pesquisa daBox 1824, em parceria com o Google, que falou sobre o consumo de notícias pelas novas gerações. A apresentação foi conduzida por Julia Curan, diretora de estratégia da Box 1824, e teve a moderação de Carlos Namur, diretor de mercado nacional de O Povo, de Fortaleza (CE), e coordenador do comitê mercado anunciante da ANJ.
Ela mostra que existe um desafio em como construir relevância para a Gen Z, que representa cerca de 20 a 25% da população atualmente. Nesse contexto, a inteligência artificial chama atenção para uma nova oportunidade no jornalismo. A pesquisa traz três desafios centrais: a ‘erosão da atenção’, que aponta para uma queda na capacidade de atenção nos últimos anos; a ‘efemeridade do interesse’, que mostra a cultura da dopamina como uma busca constante por compensação por parte das novas gerações, ou seja, ao invés de longos conteúdos, os usuários recebem e consomem sequências de conteúdos de 15 segundos em atividades compulsivas; e por fim o terceiro seria a ‘sobrecarga do estímulo’, que explica a oferta quase infinita de conteúdo atual, tornando as mensagens mais pulverizadas e mais difíceis de chegar na audiência.
A pesquisa também faz uma análise desta geração que nasceu conectada, trazendo as diferenças dos conteúdos de acordo com a evolução do tempo, começando pela ‘era da informação’ a partir de 1995, com a geração Z aprendendo que um conteúdo pode ser aberto e acessível, livre de fronteiras ou restrições; seguido pela ‘era da rede social’ a partir de 2004, onde a Gen Z deixa de ser apenas consumidora de conteúdo para se tornar também o criador dele; Já na ‘era da hiper-realidade’ a partir de 2013, a forma do conteúdo se expande unindo o físico e o digital e permitindo o jovem a integrá-lo cada vez mais, com uma nova função: entreter além de informar; Por fim, na ‘era da Gen AI’ a partir de 2020, o conteúdo se tornou tão acessível que virou commodity, muitas vezes perdendo o valor.
“Existe essa percepção de que a geração Z é desinteressada em notícias. Acho que isso não é verdade. Não se trata de um desinteresse, mas sim, um desafio em como se constrói relevância para essa geração”, acredita Julia.
Nesse novo cenário, a geração Z passou a confiar mais em pessoas do que em instituições, como por exemplo, um creator de finanças que pode trazer mais informações do que um jornal de economia, por se tratar de um conteúdo mais autêntico e acessível. Para explicar a anatomia do futuro das notícias, o relatório da Box 1824 traz sete pilares:
– Tempo: O furo dá lugar à relevância e o tom certo da mensagem que está sendo transmitida;
– Linguagem: A preferência está em um formato que engaje, ou seja, uma linguagem que gere identificação;
– Forma: Não necessariamente conteúdos longos são ruins nesta era fragmentada, visto que os jovens gostam de consumir vídeos longos no Youtube e podcasts que duram de 30 minutos a mais de uma hora. A relevância da mensagem para que consome é a prioridade;
– Experiência: Para os jovens, a notícia precisa ter camadas, ou seja, a possibilidade de expandi-la através de interações e compartilhamentos;
– Ética: No cenário atual, onde a polarização domina e a imparcialidade é monitorada de perto, é importante sair da bolha e ser cada vez mais transparente e responsável;
– Credibilidade: O conteúdo se torna cada vez mais multiplataforma e colaborativo, visto que as collabs são um grande sucesso nas plataformas;
– Autoridade: Equilibrar a autoridade financeira do veículo com os modelos democráticos e acessíveis que as novas gerações exigem.

A importância dos vídeos
Julia Schvartzer, sênior customer success manager da Chartbeat + Tubular, dos Estados Unidos, que apresentou dados da Tubular, referente ao primeiro semestre do ano, sobre o desempenho de formatos como vídeos curtos e transmissões ao vivo, além do papel dos mecanismos de busca na atenção do público às marcas jornalísticas brasileiras. “Existe uma oportunidade muito grande com os vídeos. Conseguimos falar com uma audiência jovem através das redes sociais, no qual não conseguimos alcançar somente com os sites atualmente”, crava Julia.
Os insights da Tubular mostraram que as pageviews globais permanecem estáveis e as fontes de tráfego estão ganhando força, com crescimento de 41% de crescimento de internal e 10% de queda das dark socials (tráfego de links compartilhados em canais privados, como aplicativos e emails). O tráfego do ChatGPT cresceu, mas os chatbots de IA ainda representam menos de 1% do total de pageviews.
O documento também mostra que existem hoje, mais de cinco bilhões de usuários mensais em plataformas de vídeo social, com 1 em cada 3 consumidores de todas as faixas etárias preferindo pesquisar primeiro nas redes sociais por avaliações e recomendações de produtos, sendo 60% a geração Z.
Em relação ao conteúdo educacional das plataformas, a Tubular registrou no Tik Tok 25% mais visualizações por vídeo do que o conteúdo como um todo. Já no Instagram, houve um aumento no engajamento de 47% em relação ao ano anterior. No Youtube, o conteúdo obteve 15,2% mais visualizações por vídeo do que o conteúdo como um todo.
Flávio Moreira, jornalista e consultor especializado em estratégia digital, inovação, dados e geração de receitas, fez uma análise dos resultados apresentados, trazendo reflexões sobre como transformar os dados em estratégias para ampliar audiência, engajamento e receitas. A mediação ficou por conta de Lilian Ferreira, diretora de inteligência digital e inovação da Vibra Digital, do Grupo Bandeirantes (SP).




