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Nizan cria o botox das ideias

Stalimir Vieira

Diretor da Base de Marketing

Eu estava na DDB Argentina, em 1999, quando fiquei sabendo que, num encontro da rede americana, em Bogotá, Nizan Guanaes, chamado ao palco, percorreu o caminho da plateia até lá, vestido de branco e cantando um ponto de macumba.

Nem uma palavra sobre o que terá falado. Mas a performance tornou-se memorável. O brilhante redator baiano, tornado patrão implacável, ganhava o mundo.

Neste mesmo ano, nos encontraríamos em Cannes, ambos pela DDB. Depois do jantar oferecido pela agência, quando os comensais começaram a dançar a macarena, Nizan me puxou para dar uma volta na praia.

Com o braço sobre meus ombros, contou que todos os dias acordava com a certeza de que morreria naquele dia.

Claro que não levei a sério, me parecia mais uma das suas tiradas para ficar na história (tanto que ela está aqui, quase três décadas depois).

Mas o fato é que eu deveria ter refletido melhor sobre aquela “confissão”.

Afinal, se você acorda toda a manhã, certo de que vai morrer naquele dia, você só tem duas alternativas: deixar-se morrer ou viver como se não houvesse amanhã.

Isso provavelmente explica muita coisa em sua carreira, principalmente a liberdade para assumir atitudes e decisões, controversas ou não.

Num mercado, à época, tomado por uma certa “hipocrisia ética”, em que as grandes agências juravam de pés juntos que cumpriam as regras, Nizan foi pragmático e assumiu as regras do jogo em voga. Acusado de predador, pouco se lixou.
Afinal, ia “morrer naquele dia”. Com uma recorrente configuração e reconfiguração dos negócios, blindou-se da armadilha do apego, e tornou o processo de fazer, a única coisa a merecer perenidade.

Ou seja, coerente com o que me disse naquela noite do final do século XX, entende que não haverá nada pronto, ainda que meticulosamente planejado, que mereça virar objeto de adoração eterna.

O que está pronto apenas revela, afinal, os limites estabelecidos em seu planejamento. Ficou pronto, acabou, portanto. Mas se ainda estamos vivos, o que fazemos? Fazemos mais. Ou morremos naquele dia.

Parece simples, mas não é. Lembram que Nizan me disse “eu tenho certeza”?

Significa que não é apenas uma questão de estratégia de negócios, algo racional, mas de uma compulsão de vida.

A imensa maioria dos leitores de manuais de como vencer nos negócios, não vence. Porque foca em “vencer” e não em “fazer”. “Vencer” estreita o caminho, “fazer” alarga o horizonte.

Toda essa reflexão me ocorre no momento em que Nizan lança a Nizai, a ferramenta de inteligência artificial, baseada em tudo o que ele criou, como profissional de publicidade e marketing.

Um dia, com vigoroso entusiasmo, balançou o mercado com a IG, uma Internet grátis. Tinha 41 anos. Aos 44, aparece no horário nobre, num comercial anunciando a sua nova agência, a Africa.

E agora, aos 67 anos, volta a fazer o que sempre fez de melhor: inventar um produto e ser o melhor camelô de si mesmo.

Qualquer um de nós poderia ter pensado nisso, quem sabe alguns até pensaram. Mas o Nizan fez a Nizai. Um produto para levantar ideias caidinhas. Genial.

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