Interessa-me tanto a comunicação comercial que fazemos na publicidade quanto o fenômeno da comunicação em si, que usamos no dia a dia e que é responsável direto pela evolução humana. Ou pela sua involução.
Há um fenômeno interessante acontecendo sobre educação que vai no contrassenso do cacoete de escalabilidade de coisas essenciais, com foco apenas em lucro. Refiro-me à “disrupção educacional” da sala de aula pelas telas e apps.
Durante décadas, a Suécia foi um dos maiores entusiastas da digitalização da educação. A gente aqui no Brasil achando que o caderno e o lápis ocupariam o mesmo lugar das máquinas de escrever.
Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia também abraçaram, em diferentes graus, essa revolução tecnológica nas escolas e sempre são citados como referências na educação.
Até que no começo desse semestre veio uma notícia, que chequei e é real: por lá estão tirando as telas das salas de aula com a proibição nacional do uso de celulares e o investimento na compra de livros didáticos.
O que esses países descobriram?
Uma parte da resposta está nos resultados escolares. Em 2022, aproximadamente 24% dos estudantes suecos de 15 anos não alcançaram o nível básico de proficiência em leitura na avaliação internacional PISA. Os números no Brasil também acompanham a queda.
Durante muitos anos, acreditamos que a divisão social do futuro seria determinada pelo acesso à tecnologia. Os ricos teriam computadores, internet e equipamentos sofisticados. Os pobres ficariam excluídos.
Enquanto a escola pública tenta se modernizar tecnologicamente, algumas escolas privilegiadas seguem o caminho contrário.
O contato humano está se tornando um artigo de luxo. Uma tela é relativamente barata em prestações no Magalu. Um ótimo professor não. E geralmente movimentos assim criam castas dominantes e castas de dominados.
Um professor precisa de salário, formação, tempo, espaço e atenção individual. Uma aula presencial exige investimento contínuo. Uma biblioteca precisa de livros, profissionais e manutenção.
Substituir pessoas por telas pode reduzir custos, parecer moderno, mas não funciona. Para os suecos e escandinavos em geral, claro.
A neurocientista Patricia Kuhl, em seu TEDx ‘The linguistic genius of babies’, relata um detalhe que aconteceu em sua experiência sobre o aprendizado de bebês.
Eles são capazes, com poucos meses, de aprender palavras de uma língua estrangeira (americanos aprenderam mandarim).
Porém, apenas com pessoas de verdade. Eles não apresentam o mesmo aprendizado quando expostos a gravações de áudio ou vídeo.
A conclusão de Patrícia sobre a experiência é que o aprendizado está ligado à interação humana que acompanha a informação.
A decisão dos países nórdicos deveria provocar uma discussão especialmente importante em países como o Brasil.
Escola com presença, conversa, lousa, caderno e lápis pode ser a coisa mais moderna e valiosa a ser disponibilizada para as pessoas.




