E eu não estou falando de Programa de Influenciadores
Tenho me refugiado nos livros físicos para equilibrar a overdose de IA que me proponho a tomar todos os dias para não ficar para trás no mercado de trabalho. Vou para o meu canto, sento na poltrona, pego um café e leio em voz alta para recuperar a atenção inteira — sem celular, quinhentas abas abertas, notificações ou a tentação de perguntar alguma coisa para o agente que estou tentando educar.
E foi justamente longe da IA que uma ideia me fez querer escrever este artigo. Lendo A Era da Influência, de João Pedro Paes Leme, comecei a enxergar algumas provocações do livro por outra lente: a da Comunicação Interna.
Se, fora das empresas, a maneira como consumimos informação e construímos confiança mudou tanto, por que continuaríamos nos comunicando dentro delas como antes?
Sempre acreditei que Comunicação Interna não é simplesmente troca de informações. Ela existe para gerar alinhamento, pertencimento e contribuir para os objetivos do negócio. A lógica da influência acrescenta uma nova camada a essa visão: não basta pensar no que comunicamos. Precisamos entender como uma ideia circula, em quem as pessoas confiam e o que acontece com uma mensagem depois que ela sai do canal oficial.
Durante muito tempo, nossa pergunta foi: como fazer esta informação chegar a todos? Talvez a pergunta para 2027 seja outra: para quem ela realmente importa — e o que faz com que ganhe relevância e credibilidade?
Não estou falando dos programas de influenciadores internos, que já fazem parte da estratégia de muitas empresas. Em geral, eles ainda reproduzem uma dinâmica conhecida: a empresa define a pauta, escolhe quem vai disseminá-la e mede o alcance. Mudam as vozes, mas a lógica permanece.
A mudança mais interessante é outra: deixar de tratar a influência apenas como uma estratégia de distribuição e incorporar sua lógica à própria estratégia de Comunicação Interna. A dinâmica deixaria de ser apenas conteúdo → canal → audiência e passaria a considerar também pessoas → confiança → conversa → circulação → comportamento.
Um Town Hall, encontro periódico que conecta o board a todo o time para compartilhar atualizações importantes e alinhar todos aos objetivos do negócio, ajuda a visualizar essa mudança. Na lógica tradicional, comunicamos a data, realizamos o evento, transmitimos para toda a empresa e disponibilizamos a gravação. O sucesso tende a ser medido pelo número de participantes ou visualizações.
Na lógica da influência, o Town Hall deixa de ser apenas um evento e vira uma narrativa. Antes dele, provocações colocam os temas em circulação. Diferentes vozes ajudam a contextualizá-los. Durante o encontro, perguntas e conversas alimentam a narrativa. Depois, um trecho vira vídeo curto; uma resposta, pauta para uma reunião; um dado, conteúdo para uma comunidade; uma discussão, nova pergunta para a liderança. O evento acaba, mas a conversa não.
Isso também muda a maneira de medir. Quantas pessoas assistiram continua sendo relevante, mas é apenas a primeira camada. A mensagem gerou uma pergunta? Foi discutida por um time? Aproximou áreas? Mudou uma decisão ou comportamento?
É justamente aqui que a IA volta para esta história, com a missão de produzir relevância em escala. Ela pode ajudar a segmentar públicos, adaptar narrativas a diferentes contextos, perceber dúvidas recorrentes e entender quais assuntos mobilizam quais grupos. Pode até ajudar a Comunicação Interna a produzir menos, indicando quem realmente precisa receber uma mensagem em vez de transformar cada assunto em mais um disparo para todos.
Tenho, inclusive, um sonho que pretendo realizar em breve: um agente capaz de analisar as mensagens do chat durante uma live, identificar dúvidas, temas recorrentes, reações e sinais de interesse e transformar esses dados em um índice de engajamento. Assim, poderemos saber não apenas quantas pessoas estavam presentes, mas como reagiram ao que estava sendo dito.
Durante anos, administramos canais. Depois, audiências. Mais recentemente, comunidades. O próximo passo é compreender fluxos de influência: quem escuta quem, quais vozes têm legitimidade para cada assunto, como uma ideia circula e, principalmente, o que ela provoca.
Quanto mais fácil for produzir conteúdo, mais escassa será a atenção, e mais valiosa será a confiança. Talvez esteja aí o dever de casa: menos preocupação em falar com todos e mais atenção a como as pessoas realmente escutam.




