Dias atrás, uma grande amiga, profissional de PR, me ligou para contar uma situação curiosa. Dois ex-colaboradores da minha empresa haviam entrado em contato para marcar uma reunião. Na abordagem, não fizeram questão de esclarecer que já não faziam mais parte do grupo. Ela, naturalmente, entendeu que ainda estavam ligados à empresa e fez um esforço para encaixá-los em uma agenda apertada.
Ao desligar, comentou com a sócia sobre a consideração de abrir aquele espaço, dado o vínculo que imaginava existir comigo. A resposta foi direta: “Mas você não sabe? Eles não trabalham mais lá. Estão em carreira solo”.
A questão não é terem escolhido seguir os próprios caminhos. Isso faz parte da vida profissional e é saudável em qualquer mercado. O que me surpreendeu foi outra coisa: a escolha de deixar uma informação importante fora da conversa. Afinal, se o vínculo já não existia, por que não dizer isso logo no primeiro contato? Transparência não deveria ser uma estratégia que usamos apenas quando nos convém.
A situação me fez pensar sobre uma transformação cada vez mais presente no mercado de influência: a velocidade com que profissionais deixam uma estrutura e passam a se apresentar como empresários, agentes ou gestores de carreira. Para quem começou no agenciamento artístico nos anos 2000, essa passagem era diferente. O mercado era mais fechado e a construção profissional acontecia de forma gradual. Entrar em uma agência significava aprender: acompanhar reuniões, entender contratos, observar negociações, conhecer artistas, marcas e produtores. E, principalmente, construir reputação.
Antes de ter uma carteira de talentos, era preciso construir uma carreira. Hoje, o cenário mudou. Artistas são influencers. Influencers se tornam artistas. Criadores de conteúdo protagonizam campanhas, lançam produtos e constroem empresas em torno de suas marcas. Essa transformação abriu espaço para novos profissionais. E isso é positivo.
O ponto de atenção está em quando acesso passa a ser confundido com experiência. Não é uma crítica à gen Z. É uma reflexão sobre a cultura do atalho. A tecnologia democratizou informação, ferramentas, contatos e oportunidades. Mas algumas coisas continuam levando tempo. Reputação é uma delas. Gerenciamento não é apenas saber para quem ligar. É saber negociar, cumprir o combinado e preservar relações. Uma relação comercial pode levar anos para ser construída e poucos minutos para ser perdida.
Também existe uma diferença entre inexperiência e falta de cuidado. Não saber ainda faz parte do aprendizado. Mas se apropriar de contatos construídos por terceiros, omitir informações relevantes ou tratar relações profissionais como patrimônio pessoal é outra coisa. Empreender não deveria significar apenas abrir um CNPJ. Deveria significar assumir responsabilidade por aquilo que se constrói.
Mas há um outro lado dessa história que merece ser celebrado. Existem agências, especialmente no universo criativo, formadas por profissionais jovens, que estão fazendo justamente o movimento contrário. Criam novos modelos, experimentam, conquistam clientes e crescem pelo trabalho. Não esperam décadas para serem relevantes. Usam a criatividade para construir negócios e agregar ao mercado.
Esses exemplos mostram que juventude e experiência não precisam estar em lados opostos. O mercado precisa da inquietação de quem chega, mas também da experiência de quem já percorreu o caminho.
A gen Z não precisa esperar décadas para empreender. O mercado precisa de sua velocidade, criatividade e coragem para criar novos modelos.
Mas existe uma diferença entre acelerar uma carreira e pular a construção dela. Aos jovens que estão chegando, fica o convite: ocupem esse espaço. Criem empresas. Representem talentos. Transformem o mercado. Só não tenham pressa de parecer experientes. Tenham pressa de aprender. Porque experiência é o que nos ensina a cuidar daquilo que leva mais tempo para construir e que vale mais do que qualquer contrato: confiança.




