publicidade

Histórias, design e um pouco de memória curta

Karen Fontana

CCSO e sócia-diretora da FutureBrand

Sou otimista e tenho memória curta. Acho que isso me define bem. Quando era criança, eu não gostava de leite. Antigamente, o leite era bem-quisto, sentava à mesa com as famílias. Hoje, parece ter sido escanteado junto do glúten. Quando soube que eu custava a tomar qualquer gota, a pediatra da família, minha tia no caso, assombrava minha mãe dizendo que tantos mililitros por dia eram obrigatórios. Minha mãe tentou de tudo, até me dar leite em colheradas. Mas o que funcionou mesmo e, por favor, não a julguem, foram os anos 1980: ela gravou em fitas VHS comerciais aleatórios e me colocou na frente da TV para assistir. Copos de leite desciam goela abaixo. Que beleza!

Não à toa, me formei publicitária, embora nunca tenha feito campanhas para derivados de leite, vejam só. Como diretora de arte, tinha prazer em criar o que interessava a pouca gente: editoriais, livros, brochuras, identidades visuais. Influenciada por uma colega de trabalho, fui tentar a sorte no design. Acho que deu mais certo.

Desenvolvi um senso estético apurado, aprendi a pensar por hipótese e em códigos visuais, equilibrar coerência e consistência… Precisa ser funcional? Ah, claro! Mas como importa ser agradável aos olhos! Paul Rand, Massimo Vignelli e Elaine Ramos que confirmem.

Sob os olhos de um designer, qualquer vetor ou imagem pode contar histórias. Histórias não, narrativas ou storytelling, para ficar “moderno”. Muita coisa mudou nos meus mais de 20 anos como designer, mas uma coisa permaneceu: o fascínio por um bom enredo.

Na vida pessoal, essa habilidade também rendeu. Tive dois filhos. Sim, no plural. Lembra da primeira frase deste texto? Para eles, sou a contadora de histórias oficial da casa. Já fui mamãe porco, rapper, dragão de gelo, uma lagarta comilona, o pum, surfista que dá carona e até toupeira com cocô na cabeça.

A duras penas, percebi que a leitura simples perde feio para a determinação de duas crianças pequenas em ficar acordadas. “São mais de 21h”, “Não é possível que vocês não estejam com sono”, “Todo mundo pra cama, já!”. Era preciso outra estratégia: “Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!”, dizia Fernão Capelo Gaivota, meu livro preferido na época em que minha mãe lia para mim. Talvez tenha sido ali que aprendi, sem perceber, que uma boa história também depende de como ela é contada.

Desprender-me do senso de ridículo fez toda a diferença. Vozes e rugidos que eu nem sabia que conseguia reproduzir, entonações e onomatopeias, teatro de sombras e cantorias seguidas de abraços, cócegas e risadas. As histórias ganhavam outra dimensão e eu descobria, junto com eles, novas maneiras de narrar.

Os livros infantis continuam a me fazer bem. Eles me inspiram justamente pela capacidade de dizer coisas complexas de um jeito delicado e leve. A perda e o luto, por exemplo. Há alguns meses, uma amiga próxima perdeu o pai. Lembrei da história da raposa, que ao descansar e partir, deixou tantas lembranças boas que quanto mais os outros bichos recordavam delas, mais “entenderam que a raposa ainda era parte deles”. Entregar esse livro em mãos a ela, naquele momento sensível, foi mais especial que qualquer mensagem de celular.

Obrigada, Britta Teckentrup. Talvez seja isso que mais me encanta nas histórias infantis: elas nos desafiam a criar uma conexão profunda. Com presença, com atenção, sem distrações e com empatia a cada página virada. Isso vale muito, especialmente em tempos como os de agora.

Confio que a memória que tenho de cada história e personagem vai permanecer viva por muito tempo. Nem preciso ser otimista para isso.

publicidade

NOTÍCIAS MAIS LIDAS

publicidade

publicidade

Inscreva-se para receber as últimas atualizações

Fique por dentro das novidades do mercado publicitário