Em meados dos anos 1990, fiz uma viagem com minha mulher à Europa, propositalmente sem nenhuma reserva antecipada de hospedagem. Pura aventura.
Ao desembarcarmos no Aeroporto de Zurique, fomos em busca do balcão de informações.
Para minha surpresa e frustração, o local estava desativado e um aviso indicava que devíamos fazer uso dos telefones, disponibilizados num espaço ao lado.
Eram dezenas de aparelhos convencionais, cada um com a indicação de seu respectivo hotel e o número. Por que aquilo me incomodou?
Primeiro, porque me pareceu negligência supor que nossa única demanda fosse a indicação de hospedagem, segundo por nos tirar a oportunidade de dialogar com alguém isento sobre a reputação de cada um daqueles hotéis.
Sim, eu tinha (e tenho) necessidade de “bater um papo”, “trocar uma ideia”, experimentar sentimentos alheios, ouvir o que outros ouvidos ouviram, conhecer opiniões, dialogar com os olhos nos olhos.
Se isso me incomodava em 1995, imagine hoje, mais de 30 anos passados, quando a automação assumiu o protagonismo dos nossos contatos.
Ao ter acesso, recentemente, a um relatório sobre a chamada geração Z, percebi que aquele cara num aeroporto, no final do século passado, já prenunciava, em sua frustração, um futuro de angustiante solidão.
Lendo a descrição de como esses jovens se sentem, por exemplo, ao serem automaticamente rejeitados, numa triagem para preenchimento de vaga de emprego conduzida por inteligência artificial, me emocionei.
E imediatamente lembrei da oportunidade que tive, certa vez já neste século, de receber, na minha agência, uma garota de menos de 20 anos, que queria ser redatora.
Quando ela abriu a bolsa para retirar o currículo, que apontava sua única experiência de trabalho como garçonete, percebi que havia ali um livro.
Deixei o inútil currículo de lado, e perguntei que livro era aquele. Ela retirou o volume de ‘O segundo sexo’, de Simone de Beauvoir. Depois de conversarmos um pouco sobre a obra, resolvi contratá-la.
Ficou na agência por cerca de um ano. Na média, fez um trabalho correto (o que, convenhamos, é bem razoável para uma estreante).
Decidiu sair porque, na convivência com o trabalho criativo, descobriu novas vocações.
Mas levava um registro de redatora em seu currículo e um pequeno e digno portfólio.
Isso me faz refletir sobre a missão do empregador. No momento em que inflamos o peito para exaltar o empreendedorismo e abraçamos com ardor a defesa da livre-iniciativa, pergunto onde reside o mérito maior dos empresários bem-sucedidos?
Será que, essencialmente, na sua atualidade sobre os recursos da tecnologia, de modo a baratear os custos e agilizar os processos, e implantá-los, indiferentes às consequências sobre o próximo, quando entregam, por exemplo, à IA, a avaliação de seres humanos?
Hoje, se discute a possibilidade de a inteligência artificial extinguir a humanidade.
Acredito que há uma discussão mais urgente a se fazer, e que trata do quanto, seres humanos, usando a IA, estamos extinguindo, em nós, o que há de humanidade.




