Voltei do Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia, onde fui palestrante, com uma inquietação. Um tema se repetia: a dificuldade crescente dos professores em lidar com o comportamento e o rendimento dos alunos.
A maioria dos educadores relata hoje uma dificuldade que antes não tinha essa mesma intensidade. As turmas apresentam mais dispersão de atenção, mais sinais de ansiedade e menos repertório social do que gerações anteriores tinham na mesma faixa etária. Não há uma causa única, mas o diagnóstico é claro. A pandemia funcionou como gatilho e o tempo excessivo de tela consolidou o problema.
Em 2020, o isolamento social, uma medida sanitária necessária, cobrou um preço invisível. Crianças e jovens tiveram o convívio social reduzido justamente na fase em que construíam a regulação emocional, a linguagem e as habilidades sociais. As telas ocuparam esse vazio, e o hábito permaneceu mesmo com a reabertura das escolas, manifestando-se hoje como um atraso no amadurecimento socioemocional.
Os dados confirmam o tamanho do impacto. Uma pesquisa da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com a UFRJ apontou defasagens graves na fala e na expressão oral e corporal de crianças de quatro e cinco anos durante o isolamento. A ausência de interações simples, como o brincar no pátio ou conversar com os colegas na hora do lanche, privou os alunos de estímulos essenciais.
A conta desse período continua a chegar. Em 2024, o índice de estudantes com idade adequada para a série escolar permanecia abaixo do patamar anterior à pandemia, com maior prejuízo na faixa que tinha de seis a dez anos em 2020. No campo socioeconômico, estimativas do Banco Mundial, da Unesco e da Unicef apontam que essa geração pode perder até US$ 21 trilhões em rendimentos futuros ao longo da vida profissional.
Esse grupo, que hoje tem entre 10 e 30 anos, viveu a interrupção da rotina em momentos cruciais do seu ciclo escolar. As consequências afetam a saúde mental de forma direta. Registros da Rede de Atenção Psicossocial do SUS mostram que, entre 2013 e 2023, a taxa de atendimentos por transtornos de ansiedade em crianças e adolescentes superou, pela primeira vez, o índice registrado entre adultos. Sintomas como preocupação excessiva, insônia, irritabilidade e falta de foco comprometem diretamente o aprendizado. Na ponta final, o professor lida com esse quadro complexo sozinho e sem o preparo adequado.
Insistir em métodos tradicionais diante desse cenário é um erro. As instituições precisam ajustar a sua prática pedagógica com ações concretas, entre elas capacitar os professores para identificar sinais de esgotamento, incluir o treino de habilidades socioemocionais na rotina e flexibilizar o ritmo de ensino. Dar suporte ao professor é o ponto de partida desse processo.
A mesma lógica se aplica ao mercado de trabalho, que já absorve esses jovens. Compreender a origem dessas lacunas de comportamento é indispensável para a gestão de pessoas. Exigir comunicação fluida e inteligência emocional sem oferecer programas estruturados de integração só aumenta a rotatividade e prejudica a produtividade.
A geração atual abriu mão de etapas fundamentais do seu desenvolvimento em nome de um bem coletivo. Por isso, merece atenção e cuidado. Cabe agora à sociedade, aos líderes da educação e aos gestores do mercado criar mecanismos práticos para recompor essas competências. Essa reconstrução exige compaixão, método e pragmatismo. Apoiar quem ensina e capacitar quem lidera é o caminho mais direto para reverter esse quadro.




