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A lei da gravidade

Flavio Waiteman

CCO e cofundador da Tech&Soul

Noite de 3 de setembro de 1989, um Boeing 737 da Varig atravessava o céu escuro da Amazônia. Dentro dele havia 54 passageiros sonolentos, comissários servindo café, motores funcionando perfeitamente e uma tripulação experiente.

Tudo estava tranquilo na viagem que saiu de Marabá com destino a Belém, exceto por um pequeno detalhe. O avião voava na direção errada.

Minutos depois da decolagem o piloto e o copiloto já percebiam que os pontos de referência em solo eram diferentes do que deveriam ver lá de cima. Porém, continuaram.

E os acontecimentos estranhos foram se enfileirando em camadas de desconforto. E eles em frente, impassíveis. O copiloto tentava abordar o assunto respeitosamente, segundo seu relato, mas o comandante evitava sequer falar sobre o tema.

Não queria nenhum áudio ou registro de um suposto erro gravado pelo avião. Ele era superexperiente e seguia impassível o plano de voo determinado e combinado.

Não deixava de ter razão, estava cumprindo o plano de voo do piloto automático.

Depois de horas, em que inclusive ouviram uma partida da seleção brasileira, chegaram à conclusão silenciosa de que estavam perdidos, mas não sabiam ainda o motivo e sequer falaram sobre isso de forma franca e aberta.

E usando a negação da realidade como estratégia, continuaram.

Muito tempo antes da queda poderiam ter pedido orientação a outros aviões, a redes de comunicação por rádio, mas continuaram indo para Belém, mesmo a cidade estando na direção oposta. Continuaram tentando fazer o plano de voo caber na realidade.
Sequer fizeram pedido de socorro, o que diminuiria o tempo de buscas após a queda.

Quando finalmente o combustível acabou, o avião desceu para a floresta e foi engolido pela copa das árvores. Nenhuma comunicação do avião para torre foi feita. Nenhum may-day. O resultado foram 12 vítimas fatais e os sobreviventes afetados para sempre.

A tripulação optou pela queda e o risco da morte à humilhação de ser julgado pelo erro.

A história oficial conta que onde se deveria ler e marcar no piloto automático destino 027 graus, leu-se e marcou-se 270.

Em relatos, o copiloto que sobreviveu deixa claro que fez várias tentativas de convencer o comandante (que também sobreviveu) de que deveriam pedir ajuda ao controle aéreo. Mas o capitão simplesmente ignorava qualquer argumento e impedia o contato mesmo sabendo da inevitável queda que se aproximava.

Lembrei de fenômenos semelhantes de marcas que deixam de existir, nos conceitos vencedores que são descontinuados, e em empresas incríveis que desaparecem por acontecimentos e atitudes assim.

Análise equivocada de dados, estratégias criadas sobre problemas irreais. Negação da realidade mesmo sobre fatos notórios, vaidade etc. podem fazer com que o caminho deixe de ser uma escolha e se transforme em destino.

O quanto estamos dispostos a perder para provar que estamos certos? E o quanto deixamos de ganhar quando não alteramos o plano inicial por uma questão de vaidade? O quanto estamos defendendo a decisão ou a pessoa que tomou a decisão? A mão que segura o manche é tão importante quanto o modelo do avião, o tanque cheio de combustível e o destino a que se pretende chegar.

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