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A última revolução?

Flavio Waiteman

CCO e cofundador da Tech&Soul

A revolução do fogo, na verdade o domínio sobre ele, foi uma das primeiras invenções tecnológicas da história. Um presente da natureza que a inteligência humana sacou e aplicou no seu dia a dia mudando tudo a partir daí.

O fogo ampliou radicalmente as possibilidades da nossa espécie, o alcance de nossas jornadas, a saída das cavernas.

Outras revoluções, como a do bronze, depois do aço e da pólvora, permitiram à raça humana ser a mais temida e dominar todas as outras espécies.

Depois ou ao mesmo tempo veio a revolução da agricultura, libertando o ser humano da caça e coleta.

Na revolução industrial, a força a vapor potencializou o ser humano e permitiu que nos tornássemos gigantes.

A revolução da medicina multiplicou por três a nossa longevidade nos últimos cem anos.

Uma revolução sustentou a outra e o conjunto delas nos trouxe até esse momento graças à capacidade de nosso cérebro se desenvolver e moldar-se para a sobrevivência.

Ao contrário de todas as outras, essa atual revolução pode atrofiar a capacidade que nós temos de evoluir.

No primeiro trimestre de 2026, de 55,4 mil artigos analisados pelo site de monitoramento Graphite (graphite.io), 49% deles eram “predominantemente” criados por IA.

Isso significa que a IA, hoje, escreve e pensa mais artigos para pessoas do que as próprias pessoas fazem.

A coisa divina e misteriosa de ser gente, que é pensar, está sendo terceirizada.

Precarizada. Imagine gerações de atrofia desse órgão.

Miguel Nicolelis, neurocientista global brasileiro que entende desse assunto chamado cérebro, aponta em uma das suas brilhantes participações em podcasts que no mundo científico as IAs estão escrevendo artigos (por cientistas preguiçosos e ambiciosos, acho eu) que são enviados para as revistas científicas.

As revistas científicas, por sua vez, estão usando IA para avaliar as centenas de artigos científicos recebidos e escolher quais serão publicados.

As universidades, entretanto, colocam suas IA para ler todos os artigos científicos publicados em todas as revistas, analisá-los e indicar quais deles farão parte das suas próximas pesquisas. A supervisão humana é quase nenhuma.

Já pensou se começam a fazer isso no marketing e na publicidade?

A atrofia do cérebro é algo que pode não ter volta.

Até que em algum momento alguém vai falar sobre os problemas reais, com algum ser humano que genuinamente deseja ouvir sobre esses problemas e com capacidade de cognição preservada, vai cometer um ato subversivo: criar uma ideia original, simples e vencedora, antes do uso da IA.

Essa ideia vai mexer tanto com as pessoas que vão descobrir o quanto o pensamento humano é a coisa mais valiosa que existe e por isso precisa ser cada vez mais valorizado.

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