publicidade

Carta a um candidato

Alexis Thuller Pagliarini

Sócio-fundador da Criativista

Prezado candidato, escrevo esta carta em nome de milhões de brasileiros que, como eu, sentem o peso cansativo de um tempo marcado pela divisão. Estamos entrando em mais um período eleitoral e, antes que o barulho das disputas tome conta de tudo, quero fazer um pedido simples, quase ingênuo, mas que carrego com toda a sinceridade: não nos trate como espectadores de uma guerra simplesmente entre esquerda e direita.

Sei que essa polarização rende votos, mobiliza torcidas e transforma adversários em inimigos. Mas essa lógica nos esgotou. Ela apenas nos ensinou a gritar mais alto e a escutar cada vez menos. Por isso, ouso pedir algo mais nobre: que sua campanha — e, se eleito, seu mandato — seja guiada por causas que realmente transformam vidas.

Fale sobre meio ambiente não como bandeira ideológica, mas como responsabilidade com quem virá depois de nós. Fale sobre justiça social não como discurso de palanque, mas como compromisso concreto com quem ainda não teve chance de sonhar mais alto. Fale sobre governança ética não como slogan, mas como prática diária, verificável, cobrada pelo povo que o elegeu. Trate de propósito, de causas realmente nobres. Sabemos que essa visão pode parecer utópica. Talvez seja mesmo.

Mas vivemos tempos tão distópicos — de desinformação, de ódio fabricado, de verdades manipuladas — que exercitar um pouco de utopia se tornou quase um ato de resistência. Prefiro sonhar com o que poderia ser do que me acomodar com o que sempre foi. Há também um pedido mais urgente, ligado a este momento tecnológico que vivemos.

Peço que você não recorra a artifícios escusos de inteligência artificial para enganar o eleitor. Não use deepfakes, não fabrique falas que nunca foram ditas, não distorça imagens ou vozes para manipular quem apenas quer decidir seu voto com informação verdadeira. Peço, com igual firmeza, que rejeite as fake news — não apenas quando prejudicam você, mas também quando poderiam beneficiá-lo. A ética não pode ser seletiva. Sei que a disputa é dura, e que muitos ao seu redor vão insistir que “todo mundo faz assim”, que vencer justifica os meios. Mas quero lembrá-lo de que existe um eleitorado atento, que valoriza coragem e decência mais do que estratégias de manipulação.

Pessoas de bem reconhecem quando alguém escolhe o caminho mais difícil, mas mais correto. Se você se apresentar aos eleitores com transparência, sem armadilhas digitais, sem discursos de ódio disfarçados de patriotismo ou de justiça, isso não passará despercebido.

E se for eleito e mantiver essa postura no exercício do mandato — ouvindo divergências, prestando contas, colocando o interesse público acima do cálculo político —, você não apenas cumprirá seu papel, mas ajudará a reconstruir algo que perdemos: a confiança. Não peço que abandone suas convicções ou sua identidade política. Peço apenas que, além delas, exista um compromisso maior: com a vida, com o planeta, com a dignidade humana e com a verdade. Que a política volte a ser, antes de tudo, serviço.

Nós, eleitores, estamos cansados. Cansados de brigas sujas que não resolvem nada, de promessas vazias, de campanhas que nos tratam como massa de manobra em vez de cidadãos pensantes. Queremos propostas reais, debates honestos e candidatos que enxerguem no poder uma responsabilidade, não um troféu.

Talvez esta carta não mude o rumo de nenhuma campanha. Mas, se ao menos um candidato ler e sentir o peso genuíno destas palavras, já terá valido a pena escrevê-la. Porque a mudança que tanto desejamos começa, sempre, com alguém disposto a agir diferente — mesmo quando todos ao redor insistem no mesmo caminho de sempre.

Com esperança, ainda que cautelosa,
Um eleitor brasileiro.

publicidade

NOTÍCIAS MAIS LIDAS

publicidade

publicidade

Inscreva-se para receber as últimas atualizações

Fique por dentro das novidades do mercado publicitário