Ufa! Finalmente passou o momento das eleições. Quantas decisões foram prejudicadas por conta do período instável de um ano eleitoral! Projetos paralisados, investimentos adiados, ações cautelosas… Pra quem não gosta de agir, as justificativas eram perfeitas. O fato é que o país não parou. As pessoas continuaram consumindo, produtos foram lançados, a economia continua girando. Para aqueles que titubearam ou se retraíram em demasiado, as consequências são perda de terreno e a necessidade de correr atrás do tempo perdido. Mas os mais pessimistas devem continuar se agarrando a outros motivos para o imobilismo. Para esses, é preciso ter cautela com a economia. Ganhou o candidato menos ortodoxo, mais ousado, menos afeito às regras da Faria Lima. Num primeiro momento, o mercado reagiu mal, com queda expressiva da Bolsa e elevação do dólar.
Foi assim em outros mandatos do mesmo presidente. Mas não deveria. O mercado é movido por expectativas, e expectativas se ajustam. Nas semanas que antecederam o segundo turno, os preços já embutiam a aposta em outro desfecho. Quando a urna disse o contrário, o ajuste foi brusco. O tombo de agora diz mais sobre a aposta desfeita do que sobre o que vem pela frente. Para quem toca uma empresa, importa a trajetória dos próximos trimestres, não o humor do pregão de segunda-feira. A história recente dá razões para a serenidade. Em 2002, o temor era ainda maior: dólar disparado, risco-país nas alturas, previsões de calote. O que se viu foi a manutenção do tripé macroeconômico, superávits primários em torno de 3% do PIB, inflação sob controle e crescimento com inclusão. Em 2022, o roteiro se repetiu. O dólar saltou mais de 4% em um único dia, e as manchetes falavam em ruptura.
Vieram, porém, o arcabouço fiscal e a reforma tributária, discutida por décadas, e a Bolsa terminou 2023 com alta superior a 20%. Não foi um governo sem tensões, mas foi muito diferente do desastre anunciado.
Nada disso torna as contas públicas um assunto menor. A credibilidade fiscal é o ativo mais valioso de qualquer governo. Um presidente em seu último mandato, sem nova eleição pela frente, tem condições únicas de pensar em legado. Quem já governou três vezes sabe que o mercado de juros cobra caro por qualquer deslize e que o espaço para políticas sociais depende de uma economia que gere confiança e receita. Responsabilidade fiscal e responsabilidade social não são concorrentes, são sócias. Há ainda um aspecto que escapa das planilhas: as pessoas.
A agenda de combate à fome, a valorização do salário mínimo e o estímulo ao emprego formal não são apenas questões de sensibilidade. São mercado. Famílias com renda mais estável consomem, financiam e planejam mais. O Brasil que deixa a insegurança alimentar é o Brasil que compra, empreende e contrata. A mesma lógica vale para a agenda ESG. Depois da COP30, realizada em Belém, o país ganhou projeção como potência ambiental e de energia limpa. Bioeconomia, mercado de carbono, transição energética e infraestrutura sustentável são oportunidades concretas de atrair capital e abrir negócios. Empresas que já estruturaram governança, metas climáticas e políticas de diversidade estarão mais bem posicionadas.
Um governo que dialoga com a sociedade civil, respeita instituições e trata o meio ambiente como ativo, e não como obstáculo, cria um ambiente mais previsível para o investimento de longo prazo. Nada disso é garantia, e ninguém deve planejar 2027 com ingenuidade. Vale acompanhar – e cobrar – a execução do arcabouço fiscal, a política de juros e as primeiras sinalizações da equipe econômica.
Mas vigilância é diferente de paralisia. Já esperamos o suficiente em 2026. Prudência é virtude, mas quem a confunde com inércia vê os outros chegarem primeiro. Chegou a hora de pensar em 2027. E, com os pés no chão, há bons motivos para afastar o pessimismo.




