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Igualdade também é ter poder de escolha

Imagem: Breno da Matta

Joana Mendes

Cofundadora e CCO da Jungle Kid

Comecei como redatora aos 18 anos em Rondônia e, durante boa parte da minha trajetória, fui uma das poucas mulheres negras nos lugares em que trabalhei. Aprendi cedo que ocupar um espaço não significa, necessariamente, sentir que se tem liberdade para questionar determinadas situações ou comportamentos. Houve coisas que tolerei no início da carreira e que hoje jamais aceitaria.

Com o tempo, passei não apenas a me posicionar mais, mas também a entender que avançar individualmente não era suficiente. Era importante abrir espaço para outras mulheres, pessoas negras e criar condições para que elas pudessem fazer escolhas que, durante muito tempo, não estiveram disponíveis para quem veio antes de nós. Essa ideia de autonomia vem muito da minha história familiar. Minha avó foi empregada doméstica. Minha mãe chegou a chefiar o laboratório em que trabalhava, em Rondônia, e fez doutorado.

De maneiras diferentes, as duas acreditavam na educação como caminho para a emancipação das mulheres negras. Cresci entendendo, mesmo sem dar esse nome a isso, que conhecimento, independência e possibilidade de escolha estavam profundamente ligados. Ao longo da carreira, também percebi que chegar a uma posição de liderança não resolve todas essas questões. Recentemente, eu estava em uma posição relevante em um grande grupo, com uma rotina intensa, reuniões em inglês e espanhol e muita pressão. Sempre levei minha carreira muito a sério e, até então, conseguia separar bem as coisas. Quando saí, porém, me vi diante de uma pergunta que parecia simples, mas não era: o que fazer a seguir?

Foi nesse período que vivi um episódio decisivo. Em Cannes, participei de uma mesa com Cindy Gallop. Quando saí da agência que estava, pedi uma mentoria a ela e, nessa conversa, em determinado momento, ela me disse: “Você vai abrir uma agência só com mulheres, vai fazer um bom trabalho e adquirir riqueza geracional, como os homens fazem”. Eu achei um conselho quase impossível, mas aquilo ficou comigo. Anotei como quem recebe uma tarefa de casa.

As coisas aconteceram um pouco mais devagar do que ela imaginou, mas não muito depois eu já tinha um cliente e estava convidando Natalie Kelsey para ser minha sócia. Foi assim que a Jungle Kid começou a tomar forma. Quando penso em igualdade feminina, penso tanto em presença quanto em autonomia. Igualdade não é apenas chegar aos mesmos lugares. É poder falar, decidir, construir patrimônio e criar oportunidades para que outras mulheres também avancem.

Talvez esse seja um dos maiores desafios da nossa geração: mais que conquistar espaços, é preciso transformá-los para que as próximas mulheres não precisem aceitar as mesmas coisas que nós aceitamos para chegar até aqui.

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