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Kairós e o momentum: a arte de agir na hora certa

Alexis Thuller Pagliarini

Sócio-fundador da Criativista

Na mitologia grega, Kairós era o deus do tempo oportuno e do momento decisivo. Representado como um jovem ágil, com asas nos pés e nos ombros, ele passa depressa e é difícil de alcançar. Tinha uma mecha de cabelo na testa e a nuca lisa: quem quisesse agarrá-lo precisava fazê-lo enquanto ele se aproximava, pois, depois que passava, não havia onde segurar. Kairós se contrapõe a Chronos, o tempo cronológico, sequencial e quantitativo, medido em segundos, horas, dias e anos. Chronos é o tempo do relógio, que corre e consome as coisas. Kairós é o tempo da qualidade: o que importa não é quanto dura, mas se é a hora certa. É aqui que entra o conceito de momentum.

Na física, trata-se de uma grandeza associada ao movimento. No vocabulário dos negócios, “ganhar momentum” significa ganhar embalo, ritmo, tração em um projeto. Quando há momentum, cada esforço rende mais, as portas se abrem com menos resistência e as pessoas passam a caminhar na mesma direção. Minha tese é simples: o momentum raramente nasce apenas de mais esforço. Ele nasce, em grande parte, do timing. Uma iniciativa correta e cabível pode perder a eficácia se aplicada fora de tempo. Quantas vezes ficamos com a sensação de que perdemos o timing? Na minha vida profissional, procurei sempre planejar ações visando a conquistar momentum. Um exemplo do agronegócio ilustra bem: é no momento em que vende sua produção que o agricultor tem recursos para consumir. Se soubermos abordá-lo nessa hora, teremos mais chance de efetivar uma venda. Antes, ele ainda não tem o caixa; depois, o dinheiro já foi destinado a outras prioridades.

Não se trata de insistir mais, e sim de chegar quando a porta está aberta. Saber identificar esses momentos mágicos é um exercício que pode ser treinado: conhecer o ciclo de quem queremos atender, ter paciência para esperar quando ainda não é hora e prontidão para agir quando ela chega, e preparar-se com antecedência, porque Kairós não avisa.

Nos processos de marketing e comunicação, esse timing ganha ainda mais importância. Há, porém, uma situação em que a janela de oportunidade não é uma questão de escolha, e sim de sobrevivência: a crise climática. Aqui, o timing deixa de ser vantagem competitiva e passa a ser condição de eficácia. O IPCC afirma que a janela para evitar um aquecimento potencialmente catastrófico está “muito, muito perto de se fechar”, embora ainda haja tempo e ferramentas para agir.

A ciência também alerta para os chamados pontos de inflexão, eventos de efeito irreversível, como a morte da floresta amazônica. Para um país como o Brasil, que abriga a Amazônia e tem no agronegócio um pilar da economia, essa não é uma discussão distante.

Aqui, Chronos e Kairós se encontram de forma dramática. O relógio corre, e a cada ano as emissões acumuladas encurtam as opções. Ao mesmo tempo, existe um momento oportuno que precisa ser agarrado: o de investir em energia limpa, restaurar áreas degradadas, combater o desmatamento e adotar práticas agrícolas de baixo carbono, enquanto ainda há margem para que essas escolhas façam diferença.

Ação tardia custa mais e entrega menos. Ação agora gera momentum: cada avanço barateia o seguinte, atrai investimento, cria mercado e inspira novos participantes. Chronos e Kairós, afinal, não são rivais, e sim complementares. Planejamento, metas e cronogramas nos colocam em posição; a sensibilidade para o momento decisivo define quando agir.

Quem só espera a hora perfeita nunca age, e em matéria de clima essa espera tem preço que nossos filhos e netos pagarão. Como escreveu Victor Hugo: “Nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”. A ideia de uma economia que prospera sem destruir sua base natural já tem seu tempo. A pergunta é se estaremos atentos para agarrá-la enquanto ela se aproxima, de frente, com a mecha de cabelo ainda à mostra.

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