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Marcas pagam por alcance e destroem a influência

Fabrício Macias

Cofundador e VP de marketing da Macfor

O processo de aprovação interno destrói mais campanhas de marketing de influência do que a escolha errada de criador. Rodei orçamento de mídia paga tempo suficiente para ver esse padrão se repetir. Quanto mais a marca tenta proteger a mensagem no papel, mais ela anula o motivo pelo qual contratou aquele criador.

A confiança que uma marca compra ao fechar com um criador não é só dele. É da audiência que aprendeu a reconhecer aquela voz, aquele ponto de vista, aquela forma de se comunicar.

Quando o roteiro apaga isso para proteger a marca, o conteúdo que sai do outro lado soa a publicidade corporativa publicada no canal errado, e a audiência percebe isso antes de qualquer relatório de performance.

O atrito quase nunca nasce da criatividade. Nasce do processo de aprovação, desenhado para proteger a marca de risco e que, na prática, acaba protegendo a marca do próprio motivo pelo qual ela contratou aquele criador.

Restrições legais, critérios de posicionamento e valores inegociáveis pertencem a esse documento. Roteiros de execução, sequências de fala e listas de formatos aprovados, não.

Uma pesquisa da Later, com 609 criadores e 862 marcas no mercado americano, dá números a isso. 53% dos profissionais apontam briefing claro como fator crítico para parceria funcionar, mas só 10% dizem ter liberdade criativa real na hora de produzir o conteúdo patrocinado.

Mesmo assim, o investimento segue subindo. O IAB projeta US$ 44 bilhões para o mercado americano em 2026. Já vi esse descompasso de perto administrando budget de mídia. A verba sobe, o controle sobe junto, e o resultado sofre exatamente na hora que devia entregar mais.
A mesma pesquisa mostra queda de confiança entre audiências da geração Z quando percebem que o criador não teve liberdade para produzir, e isso contamina a percepção da marca inteira, não só daquela publicação específica.

Um levantamento mais recente, da Ipsos com a Publicis Media em novembro de 2025, reforça o ponto. 45% dos criadores hoje priorizam trabalhar com marcas de qualidade acima de qualquer outro critério na hora de aceitar uma parceria. A reputação de uma marca circula entre eles antes de qualquer proposta comercial chegar à mesa.

Talvez o erro esteja em tratar influência como mídia. Quando a marca compra mídia, ela compra acesso a uma audiência e controla a mensagem. Quando a marca fecha com um criador, está comprando outra coisa, credibilidade emprestada. Alcance é quantas pessoas aquele conteúdo consegue atingir.

Influência é o peso que essa pessoa tem sobre quem está do outro lado. E são justamente os mecanismos criados para dar segurança à marca, jurídico, brand safety, aprovação em cadeia, necessidade
de previsibilidade, que acabam confundindo as
duas coisas.

No relatório, a campanha continua entregando visualizações, impressões, até um CPM eficiente. O que não aparece ali é quanto de influência se perdeu no caminho.

Quem revisar a orientação antes de aprovar a campanha e perguntar se aquele material deixa o criador produzir o tipo de conteúdo que a audiência dele reconhece como sendo dele, evita o prejuízo antes de ele existir.

Quem já está no meio de uma campanha capenga e sente que o retorno não aparece, faz a mesma pergunta para estancar a perda antes que ela cresça. Prefiro confiar no criador certo a controlar o errado, é mais barato no fim das contas.

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