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O algoritmo é cinza

Vicky Salles

Diretora de cena da Ilha Crossmídia

Dorothy abre a porta de sua casa e deixa para trás um mundo em preto e branco. Do outro lado, encontra Oz: um universo onde a tecnologia recém-chegada do Technicolor não era apenas um avanço técnico, mas parte da própria narrativa. A cor não servia para enfeitar a imagem; era a materialização de um mundo onde tudo parecia possível.

Décadas depois, voltamos ao mesmo universo em Wicked, mas desta vez a cor não está lá. A fotografia é deliberadamente mais contida porque, segundo seus realizadores, isso aproxima a história da realidade.

Mas quando foi que decidimos que a realidade precisava ter menos cor? Quando foi que perdemos essa magia? Nos últimos anos, parece que construímos um consenso silencioso: quanto mais dessaturada uma imagem, mais elegante ela parece. Mais sofisticada. Mais cinematográfica. É uma associação curiosa, porque não nasceu de uma verdade estética, mas da repetição.

E nunca repetimos as coisas tanto quanto agora. Vivemos cercados por algoritmos que aprenderam a identificar padrões de sucesso. Eles sabem quais imagens geram mais engajamento, quais campanhas performam melhor, quais filmes agradam mais ao público. Mas algoritmos não criam linguagem; eles apenas reforçam aquilo que já foi aprovado.

Christopher Nolan dessaturou Gotham porque aquela narrativa precisava disso. Foi uma escolha profundamente autoral. O problema começou quando essa escolha virou fórmula. De repente, quase todo blockbuster passou a perseguir a mesma paleta, até personagens como o Homem-Aranha, cuja identidade nasceu em quadrinhos vibrantes, passaram a existir em mundos onde as cores parecem pedir licença para existir.

A consequência é uma padronização silenciosa do olhar. De tanto vermos imagens dessaturadas, começamos a acreditar que elas são naturalmente mais refinadas. Que cor é excesso. Que vibrância é exagero.

Na publicidade aconteceu algo parecido. A influência da escola argentina trouxe um naturalismo que revolucionou a linguagem audiovisual. Produziu filmes extraordinários. Mas toda revolução corre o risco de virar convenção. E toda convenção, quando deixa de ser questionada, deixa de ser linguagem para se tornar apenas um filtro.

Só que basta olhar pela janela para perceber que isso simplesmente não corresponde ao mundo real. A realidade das ruas latino-americanas é colorida. Os tecidos africanos são coloridos. Os mercados populares, as frutas, as festas, a arquitetura, a moda. Vivemos cercados por cores intensas!

É curioso que um mercado que gosta tanto de falar sobre inovação aceite repetir tão facilmente uma mesma estética. Talvez seja por isso que eu continuo voltando a artistas como David Hockney e a mestres do cinema japonês como Akira Kurosawa como inspiração. Para Hockney, a cor nunca era só decoração: ela molda o mundo e altera nossa percepção da realidade. Em filmes como ‘Kagemusha’ e ‘Ran’, cada figurino, cada bandeira, cada composição faz a narrativa avançar; a cor é dramaturgia, também escreve o roteiro.

E é assim que eu levo os filmes publicitários que dirijo: a cor não entra só para enfeitar a imagem, mas para conduzir a emoção, atiçar o olhar, dar sentido à história e deixar tudo mais mágico, como em Oz. Sem ela, não estamos perdendo apenas saturação, estamos perdendo diversidade estética e ficando presos em um algoritmo acinzentado.

Para mim, o verdadeiro ato de inovação hoje é justamente devolver aos filmes aquilo que um dia Dorothy descobriu ao abrir a porta: a vida é mais bonita colorida.

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