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O desafio das marcas na era da IA

Salomão Araújo

Vice-presidente comercial Brasil na Rakuten Advertising

Há pouco mais de uma década, quando comecei minha jornada no e-commerce intelligence, a frase que mais ouvia das empresas era: “temos dados demais e estamos perdidos”. Hoje, essa frustração é ainda mais aguda. Organizações acumulam bytes em volumes incompreensíveis. São dados de transações, navegações, comportamentos, contextos, mas continuam tomando decisões baseadas em intuição ou em relatórios do mês passado. O gap entre big data (quantidade) e smart data (inteligência) nunca foi tão evidente.

A verdade incômoda é que não é a falta de informação que congela as estratégias: é a incapacidade de convertê-la em conhecimento acionável em tempo real. Esse é exatamente o desafio que a inteligência artificial veio resolver, não para substituir líderes, mas para ampliar sua capacidade de enxergar padrões e agir com precisão cirúrgica. O problema está nos silos. Nas empresas em que trabalho, vejo equipes de dados, de marketing, de vendas e de operações operando em universos paralelos. Um cliente navegou no site da marca, clicou em três produtos, saiu — e ninguém falou sobre isso. O sistema de CRM não conversa com o e-commerce. O departamento de precificação não sabe o que o algoritmo de recomendação já descobriu sobre preferências.

O resultado é paralisia por excesso de informação e oportunidades perdidas a cada segundo. A IA, quando bem implementada, faz o que humanos demoravam semanas para fazer manualmente: unifica essas informações fragmentadas, identifica anomalias, cruza padrões e emite recomendações. Mas — e isso é crucial — ela só funciona quando alimentada por dados limpos, contextualizados e confiáveis. Garbage in, garbage out, como dizem por aí. A transição da análise retrospectiva para a inteligência preditiva e prescritiva muda o jogo completamente. Antes, as marcas respondiam: “Por que as vendas caíram?”. Agora, perguntam: “Qual cliente vai deixar de comprar nas próximas duas semanas? E qual ação tomar agora para evitar isso?”.

Um estudo da McKinsey (2024) aponta que empresas que implementam IA preditiva conseguem aumentar a retenção de clientes em até 25% e reduzir o churn em segmentos críticos. Na prática, isso significa ofertas personalizadas no momento certo — nem antes, nem depois —, precificação dinâmica que responde à demanda real, otimização de campanhas que aprende a cada interação e Lifetime Value (LTV) que cresce consistentemente. Não é mágica — é matemática servida com dados de qualidade e algoritmos treinados para aprender.

Aqui entra a questão ética e regulatória que nenhuma marca sábia pode ignorar. LGPD, GDPR e leis de privacidade globais não são obstáculos à IA — são o piso mínimo de confiança. Todas as recomendações que um algoritmo faz para um cliente devem ser rastreáveis, explicáveis e consentidas. A transparência não é um custo; é um ativo competitivo. Consumidores e stakeholders — investidores, parceiros e reguladores — exigem saber como seus dados são usados e com que propósito. As marcas que tratam conformidade como checklist falham. As que a tratam como princípio de design colhem confiança duradoura. A IA com consciência regulatória e ética é a IA que perdura.

A realidade é que o futuro das marcas será definido por quem conseguir integrar melhor três elementos: tecnologia robusta — sistemas, arquiteturas de dados e modelos de IA —, agentes autônomos inteligentes — que tomem decisões sem esperar por humanos — e ecossistemas omnichannel coesos — em que o cliente tem a mesma experiência em qualquer ponto de contato. Mas — e repito com convicção — nenhum desses elementos funciona sem julgamento estratégico e visão de líderes que entendam negócio, não apenas tecnologia. A IA não substitui o CEO, o CMO ou o CFO. Amplifica suas capacidades. Exige deles, porém, uma mudança profunda: cultura de experimentação, decisões orientadas por dados em vez de hierarquia e coragem de pivotar quando os números mostram um caminho diferente. As marcas que entendem isso — que veem a IA como ferramenta de inteligência estratégica e não como substituição de pensamento — serão as que prosperarão. O resto verá seus competidores aprenderem mais rápido e ganharem market share enquanto elas ainda estão discutindo qual relatório confiar.

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