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Os olhos têm de viajar (longe das telas)

Kika Brandão

CEO da Eixo, consultoria de consumer behavior & culture consulting do ecossistema Biosphera.ntwk

Quando veio o convite para participar desta coluna, precisei encontrar espaço para refletir sobre o que me inspira. E, verdade seja dita, tem sido uma missão quase impossível encontrar essa tal inspiração em um mundo tão veloz, que faz sempre questão de nos lembrar que estamos atrasados — na entrega, na referência, na notícia, na resposta, na ideia.

No meio de uma lista de pendências infinitas, que a cada semana parece crescer, a inspiração não veio. Mas eu precisava honrar a entrega deste texto, que já estava um dia atrasado justamente pela ausência dela. Não tem tutorial, best-seller de aeroporto, ritual de escrita matinal, aula de cerâmica ou mindfulness que dê conta. É difícil a inspiração aparecer no meio de uma caixa de e-mails lotada, WhatsApps pendentes, decks para revisar e um feed que exige atualização permanente sobre tudo o que está acontecendo.

Vivemos tempos anti-inspiração. Essa talvez seja a notícia. Uma indústria criativa feita por pessoas cansadas, tentando criar enquanto administram a própria exaustão. Foi no meio dessa constatação que uma frase de Diana Vreeland começou a martelar na minha cabeça como um mantra: “The eye has to travel”.

Diana, que foi editora da Harper’s Bazaar e editora-chefe da Vogue entre o fim dos anos 1930 e o começo dos 1970, fez mais do que estar “à frente do seu tempo”. Ela rejeitou o tédio, a mesmice e o conforto do olhar convencional. Transformou em potência aquilo que outros enxergavam como defeito ou inadequação: a magreza andrógina de Twiggy, a extravagância de Cher, o nariz fora do padrão de Barbra Streisand.

Diana me inspira por muitas razões. Pela mulher que transformou a própria experiência de estar fora do padrão estético de sua época em combustível para construir excelência e exuberância. Mas, principalmente, por enxergar a realidade como matéria-prima, nunca como algo pronto. Para ela, o antídoto contra a mesmice começava por rejeitar o confinamento do olhar. Tadinha. Ia ficar bastante entediada vivendo em 2026.

Porque talvez o nosso maior confinamento hoje nem seja físico. A gente vê muito e olha pouco. Circula por uma quantidade infinita de imagens, referências, tendências, opiniões e repertórios, quase sempre através das mesmas telas, dos mesmos algoritmos e das mesmas bolhas.

Fazer os olhos viajarem, então, virou um exercício deliberado de curiosidade. Algo que precisa de treino — tipo musculação para mim. Inspiração, para mim, é colocar todos os sentidos em movimento. Fazer os olhos, o corpo e a imaginação alcançarem lugares que a rotina não alcança. E, quase sempre, isso passa por gente e por boas histórias.

Acabei de voltar de Belém do Pará. Minha primeira vez em um território que hoje consigo chamar de fonte primária de inspiração. Passei alguns dias fazendo aquilo que está no centro do meu trabalho: pesquisa in loco. Andando, conversando, observando, ouvindo, comendo, entrando em lugares que eu não conhecia e, principalmente, furando a própria bolha geográfica. Como jornalista que migrou para o outro lado do balcão, voltei me perguntando por que nós, que trabalhamos com criatividade, estratégia e comportamento, ainda viajamos tão pouco pelo Brasil para entender os muitos Brasis sobre os quais insistimos em criar.
Em Belém, conheci Charles Ygara, morador ribeirinho da Ilha do Combu.

Ex-operador de motosserra, trabalhou derrubando árvores na Amazônia até entender que a floresta de pé valia mais. Hoje, ao lado da mulher e dos filhos, lidera um projeto de turismo de experiência e sustentabilidade, trabalha pelo fortalecimento comunitário da ilha e mantém viva a tradição do banho de cheiro, presente em sua família há cinco gerações.

Sentar às margens do igarapé do Piriquitaquara para ouvir sua história, entrar na mata, sentir seus cheiros e receber um banho feito a partir daquele conhecimento ancestral me ensinou mais sobre cultura, sustentabilidade, território, economia e futuro do que muitos relatórios de tendências que passaram pela minha tela este ano.

E talvez esteja aí o que mais me inspira.

Meu trabalho é entender gente. Na Eixo, passamos boa parte do tempo tentando decifrar transformações culturais e comportamentais para ajudar empresas a enxergar o que ainda não estão enxergando. E cada vez mais acredito que, para fazer isso, precisamos levar esse “entender de gente” para passear por aí.

Tirá-lo da Faria Lima. Dos mesmos bairros. Dos mesmos eventos. Das mesmas referências. Dos mesmos feeds. Fazer pesquisa com o corpo. Deixar que outros territórios baguncem nossas certezas.

Voltei de Belém renovada, mas também mais inquieta. Como podemos falar de Brasil olhando tão pouco para o Norte? Que estratégias estamos deixando de construir porque não conhecemos esses territórios? Quantas histórias, comportamentos, estéticas, economias e futuros permanecem invisíveis para as marcas simplesmente porque estamos todos olhando para os mesmos lugares?

Talvez a inspiração não seja exatamente algo que a gente encontra. Talvez seja o que acontece quando a gente se dispõe a sair do lugar conhecido.

Diana Vreeland estava certa: os olhos têm de viajar. E, em tempos de telas infinitas, talvez eles precisem viajar de verdade.

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