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Patrocínio no esporte: da fotografia ao filme

Adauto Gudin

Presidente da Associação Patrocínio Brasil

O patrocínio no esporte atravessa um ciclo favorável no Brasil. Há mais marcas interessadas, propriedades mais estruturadas, novas modalidades ganhando escala e audiências que já não se organizam apenas em torno dos grandes eventos tradicionais. O desafio é transformar essa expansão em valor sustentável. Isso exige uma mudança de perspectiva. O esporte ainda é, muitas vezes, comercializado a partir da fotografia: a medalha, o título, a final, o atleta em evidência, o pico de audiência. Mas o valor estratégico do patrocínio está no filme, na capacidade de construir presença, relacionamento e significado ao longo do tempo.

Os dados de 2026 ajudam a dimensionar essa transformação. Levantamentos do Ibope Repucom mostram que, na Série A, categorias como financeiro, alimentação, construção e automotivo ampliaram sua presença, enquanto a Superliga de vôlei reúne mais de 200 marcas únicas. São sinais de um mercado mais diversificado e de propriedades capazes de dialogar com diferentes setores e objetivos.

O movimento aparece também em outros territórios. O Vivo Rio Pro chegou a 25 marcas parceiras; a etapa carioca da Street League Skateboarding reuniu 13 patrocinadores; o Ironman 70.3 São Paulo recebeu 1,8 mil atletas e projetou impacto econômico de R$ 54 milhões. Na corrida de rua, a Maratona do Rio reuniu 70 mil inscritos e mais de 40 marcas. São números que mostram escala, mas também uma mudança na natureza do ativo esportivo.

Modalidades antes classificadas como nicho passaram a organizar comunidades relevantes e altamente conectadas. Surfe, skate, triatlo e corrida são exemplos claros. A internet ampliou a produção de conteúdo e permitiu que atletas, praticantes, organizadores e marcas sustentassem uma relação contínua com essas comunidades. É nesse ponto que o patrocínio deixa de ser apenas uma compra de exposição e passa a operar como plataforma. O evento continua importante, mas passa a ser um dos momentos dessa plataforma, talvez o mais visível, não necessariamente o mais valioso. A construção começa antes, com conteúdo, serviços, relacionamento e experiências, e pode continuar depois da competição, conectando produto, hospitalidade, CRM, influência e geração de negócios.

Essa lógica amplia a compreensão sobre audiência. O público de um evento não é formado exclusivamente por fãs históricos da modalidade. Há pessoas atraídas pelo entretenimento, experiência, estilo de vida ou sentimento de pertencimento. Para as marcas, essa interseção entre fãs, praticantes, consumidores e comunidades é um ativo estratégico.

Por isso, o desenvolvimento das propriedades precisa avançar na mesma direção. Não basta ampliar inventário ou adicionar entregas. É necessário estruturar propostas que permitam às marcas construir presença ao longo de uma jornada, com objetivos claros, diferentes pontos de contato e capacidade de mensuração. Os contratos mais longos vistos em 2026 reforçam essa lógica. A Netshoes fechou três anos com a São Silvestre e a Centauro assumiu por cinco anos a Maratona do Rio. A duração cria condições para construir repertório, relacionamento e valor acumulado.

Defendemos essa evolução como parte do amadurecimento do mercado. O patrocínio no esporte precisa ser entendido como plataforma de médio e longo prazos, integrada à estratégia das marcas, e não como uma sucessão de oportunidades dependentes do resultado ou da visibilidade de um momento. O Brasil reúne hoje propriedades nacionais relevantes, eventos internacionais, crescimento da prática esportiva e comunidades digitais consolidadas. A oportunidade não está apenas em aumentar o volume de patrocínios, mas em elevar a qualidade estratégica dessas relações.

Uma medalha, um título ou uma final podem produzir uma fotografia poderosa. O valor de uma plataforma de patrocínio está em transformar esses momentos em uma história contínua, relevante para a propriedade, para a marca e, principalmente, para as pessoas.

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