Quando cultura vira estratégia de marca

Imagem: Divulgação

Camila Yunes Guarita

Consultora de arte e fundadora e diretora do Kura Arte

Atualmente, está acontecendo uma mudança real na forma como marcas se aproximam da arte. Não é sobre colocar um logo do lado de uma obra bonita, é sobre construir relação de verdade com quem produz cultura.

Existe uma diferença clara entre patrocínio cultural e marketing cultural. Patrocínio é apoiar a existência da cultura, sem um fim específico em mente. Marketing é usar um momento cultural para vender um produto. As duas coisas às vezes se confundem, mas não são a mesma coisa. Um exemplo simples: pense numa instituição cultural que só expõe um único artista e o produto final é vendido na loja de suvenires.

Ninguém levaria aquele espaço a sério como museu. O que dá credibilidade é diversificar, apoiar a cultura em si, e não só usá-la como vitrine. Essa relação entre diferentes campos da criatividade não é nova. Moda, arte, literatura, música, sempre dialogaram entre si, há décadas, em vários lugares do mundo. Marcas de luxo europeias construíram parte da própria identidade apoiando artistas, escritores e instituições culturais por gerações. É uma tradição.

No Brasil, infelizmente, ainda vemos pouco disso na prática. Ainda é comum a lógica de patrocínio pontual, pagar por um naming em um evento ou aparecer numa exposição por um final de semana, em vez de construir presença de longo prazo dentro do ecossistema cultural. E é uma pena, porque essa prática amplia demais as conversas entre diferentes áreas de trabalho, moda falando com arte, arte falando com literatura, música falando com design. Quando esses universos se cruzam de verdade, todo mundo ganha: os artistas ganham visibilidade e recurso, as marcas ganham relevância genuína, e o público ganha acesso a algo que talvez não chegasse até
ele de outra forma. Aproxima as pessoas da arte. E isso é maravilhoso.

Isso é algo que vivo na prática, todos os dias, na Kura e na CYG. Quando uma marca se aproxima de um artista, de uma galeria, de uma livraria ou de uma instituição com a lógica certa, ela não está comprando visibilidade, está construindo relevância cultural de verdade. E relevância cultural, diferente de campanha publicitária, não se mede em curto prazo. Ela se constrói.

Um exemplo disso é o Radar de Talentos, iniciativa que desenvolvo com apoio da Starkbank. A ideia nunca foi “usar” arte para vender um produto financeiro. Foi criar um espaço real de descoberta e apoio a novos artistas, e deixar que a marca fizesse parte dessa construção, sem controlar o resultado criativo. Esse é o ponto: quando você constrói uma relação genuína com a
cultura, tem que abrir mão de um pouco de controle sobre o que está apoiando. O trabalho pode
não bater 100% com a visão da marca. E tudo bem, é justamente isso que dá autenticidade.

O que estamos vendo agora é um número crescente de marcas de moda, de luxo e de tecnologia se aproximando de artistas, galerias e livrarias como forma de gerar desejo e posicionamento. Não como patrocínio pontual de um evento, mas como construção de ecossistema: apoiar quem já produz cultura, em vez de tentar se colocar no centro dela. Faz sentido, principalmente num momento de tanta desigualdade visível. Marcas com escala têm real capacidade de impacto cultural, e cada vez mais entendem que isso não precisa ser transacional. É construir um ambiente cultural mais rico ao redor da marca, o que naturalmente atrai quem se identifica com esse universo.

Na minha visão, o que separa uma parceria que funciona de uma que soa forçada é simples: autonomia de quem está sendo apoiado, tempo para a relação amadurecer, e a marca aceitando que nem tudo vai ser um espelho da própria visão dela. É essa lógica que trago para cada projeto que desenho entre marcas e o universo da arte, seja na Kura, seja na CYG.

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