Sou uma workaholic em processo de desconstrução. Comecei a trabalhar cedo, assim que entrei na faculdade, em busca da minha independência financeira. Tive o privilégio de contar com o apoio do meu pai para custear meus estudos, mas queria construir meu próprio caminho.
O fascínio pelo mundo corporativo foi imediato. Admirava aquelas pessoas sempre ocupadas, correndo de uma reunião para outra, ficando até tarde no escritório. Na publicidade, esse cenário era ainda mais sedutor. As agências carregam uma energia vibrante: gente criativa, prazos apertados, campanhas nascendo madrugada adentro, pizzas divididas entre apresentações e brainstorms. Voltar para casa tarde não era um problema — pelo contrário, dava um enorme senso de pertencimento.
Mas os anos passaram. A adrenalina diminui e a sensação de propósito que antes justificava qualquer esforço começa a dar sinais de desgaste. Quando estamos nesse ritmo, raramente enxergamos nossos próprios limites. Não percebemos que precisamos desacelerar e ignoramos os sinais do corpo. Até que ele decide falar mais alto. E, muitas vezes, quando isso acontece, já não é um convite para parar — é uma obrigação.
Há 15 anos, trabalhar sem limites era visto como o único símbolo de comprometimento. Fazíamos porque acreditávamos que era assim que se construía uma carreira relevante. Queríamos colocar campanhas incríveis no ar, atender grandes marcas e conquistar espaço em um mercado altamente competitivo. Saúde mental nem sequer fazia parte da conversa.
Quando engravidei, entendi que precisaria olhar para mim com outra atenção. Em breve, haveria uma vida dependendo da minha presença e da minha disponibilidade emocional. O que eu não esperava era que a maternidade também transformaria a minha forma de trabalhar.
Quando nasce um bebê, nasce uma mãe. Mas nasce também uma profissional profundamente diferente. Mais resiliente. Mais paciente. Mais analítica. Uma executiva capaz de escutar melhor, tomar decisões sob pressão, priorizar o que é essencial e gerenciar crises com uma empatia que nenhuma pós-graduação é capaz de ensinar.
Hoje, vivemos uma transformação inevitável. Ambientes mais flexíveis, inclusivos e humanos não beneficiam apenas as mulheres; eles fortalecem toda a cadeia de valor da nossa indústria. A maturidade de vida traz um refinamento direto para a entrega corporativa.
Quando uma campanha finalmente entra no ar, existe uma boa chance de que, por trás daquele conceito, daquela direção ou daquele desenho de som, exista uma mulher que concluiu mais uma jornada dupla. E é exatamente nessa interseção entre a vida real e o trabalho que a nossa indústria precisa se reencontrar.
Porque o craft da publicidade não é feito apenas de horas acumuladas em uma sala de reunião, mas de repertório humano. É o cuidado, a escuta atenta, o olhar para o detalhe e a busca pela perfeição que transformam uma simples execução técnica em uma obra inesquecível. Quando a indústria entende que a vivência de uma mãe não anula sua ambição, mas multiplica sua capacidade técnica e estratégica, o mercado ganha eficiência e o craft finalmente ganha alma.




