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Tenho pressa, muita pressa…

Alexis Thuller Pagliarini

Sócio-fundador da Criativista

No icônico livro de Lewis Carroll, ‘Alice no País das Maravilhas’, o personagem Coelho, que no filme de Tim Burton recebeu o nome de Nivens McTwisp, fazia Alice correr sem parar. Tenho pressa, muita pressa… dizia o coelho. A razão da pressa do coelho era o medo de contrariar a temida Rainha de Copas, que ameaçava cortar a cabeça de quem a desagradasse. A pressa desesperada do coelho era retratada por Carroll em 1865.

Muitos anos depois, aqui estamos nós, correndo contra o tempo, com o mesmo desespero. As soluções digitais e, agora, a inteligência artificial, criaram um novo paradigma de que o tempo é mais importante até do que a qualidade.

Melhor fazer rápido e depois corrigir, do que esperar a perfeição, dizem os empreendedores digitais. A cada nova onda de inovação disruptiva, há uma corrida contra o tempo para ver quem sairá na frente de competidores e tomar posição de liderança.

E o homem, que deveria buscar sempre melhores condições de vida, vai dormir todos os dias com a sensação de estar atrasado ou de ter perdido alguma coisa. É uma sensação de Fomo (Fear of Missing Out – Medo de Perder Algo) constante.

Na minha infância, lá em Jaboticabal, lembro de que meus pais agendavam com a telefonista uma ligação para São Paulo. E era preciso esperar horas para a ligação ser realizada. Agendávamos o táxi com antecedência de horas.

Hoje, ficamos ansiosos se não conseguimos falar imediatamente com alguém, não importa onde esteja o interlocutor. Se o Uber demora mais do que 5 minutos, ficamos irritados. Quando comecei a trabalhar em agência, o tempo de criação de uma campanha tinha de ser respeitado. A ideia tinha de maturar e, às vezes, ser testada junto ao público-alvo para validação. Hoje, caprichamos num bom prompt e – voilà – temos ideias cuspidas em segundos.

São as melhores? Não sabemos. Mas vamos fazendo – se não funcionar, trocamos. E vamos nos acostumando com essa instantaneidade das coisas, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se já não bastasse o ritmo frenético já adotado pelas agências desde sempre, que tinham de gerar boas ideias sem parar, agora a cobrança é ainda maior, por conta da IA.

Lembro de um artigo que escrevi, publicado na Folha de S.Paulo lá pelo início dos anos 2000, cujo título era ‘Tenha uma boa ideia já! E outra, e outra…’. No artigo, eu valorizava o trabalho dos criativos da agência (na época, da Loducca), que recebiam meia dúzia de briefings na segunda-feira e tinham de gerar boas ideias até o fim daquela semana. Hoje, não se espera mais uma semana. E não precisamos esperar a disponibilidade do cliente – dá para apresentar online rapidinho. E a humanidade caiu nessa armadilha da ditadura do tempo. Somos todos coelhos, correndo de lá para cá, cheios de pressa. Para chegar onde?

Para conquistas efêmeras, para bater a meta, para acumular dinheiro que mal temos tempo para gastar… Pior ainda para aqueles em que a subsistência depende visceralmente do tempo. São entregadores se arriscando no trânsito para bater a meta do dia. São motoristas de aplicativos que ampliam o horário de trabalho, que sacrificam uma boa parada de almoço, para dar conta de corridas para pagar
as contas. Temos pressa, temos pressa, temos muita pressa…

É o corre vital dos nossos dias. Mas a verdadeira pressa deveria ser para evitar o desastre iminente do aquecimento global, que, a cada ano, mostra efeitos mais devastadores. São geleiras degelando numa velocidade nunca vista, chuvas torrenciais de um lado, seca de outro, impactando vitalmente a vida das pessoas. Temperaturas batendo recordes mundo afora… Mas para isso parece que não temos pressa. Não queremos olhar para isso agora. Estamos muito ocupados com job de hoje. Precisa entregar amanhã.

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