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Uma advertência cretina

Stalimir Vieira

Diretor da Base de Marketing

É surpreendente que tenha saído do ministério que foi comandado por Fernando Haddad uma das mensagens de alerta a consumidores mais imprestáveis de que já tive conhecimento.

A frase – ‘Aposta não é investimento’ – é dotada da proeza de não dizer nada a ninguém, de não mover uma palha no combate à compulsividade pelo jogo.

E, ainda, carrega, sem disfarçar, a clara intenção de proteger o negócio das bets de qualquer alteração no comportamento das suas vítimas.

Temos aí uma revelação escandalosa das limitações impostas pelos capos da jogatina a quem tenta interferir em sua performance.

É evidente que a “advertência” foi cuidadosamente elaborada para não incomodar. Ela, inclusive, me remeteu a outra iniciativa que mereceu um artigo por aqui também.

Lembram da Monja Cohen, “embaixadora da moderação”, contratada pela Ambev? Uma iniciativa que, por óbvio, deu com os burros n’água, exatamente pela mesma falta de consistência.

Tentar alcançar a massa de apostadores em bets, majoritariamente gente pobre e de baixa instrução, lembrando que “aposta não é investimento”, só não é mais estúpido porque não esconde a sua má intenção.

A ideia é essa mesma: não dizer nada suficientemente relevante para que os adictos em bets que, inclusive, têm comprometido o Bolsa Família, se sintam estimulados a abandonar o vício.

Parece negociação entre mafiosos: eu faço de conta que alerto e ambos continuamos faturando. É cínico, é debochado, é irresponsável e é canalha, porque foi criado por gente que sabe que não funciona. Desde os anos 1970, testemunho a pressão de lobistas de cassinos pela regularização da sua volta ao Brasil. A resistência da Igreja Católica sempre evitou a aprovação pelo Congresso.

Foi, aliás, para atender ao pedido de sua mulher, católica fervorosa, que o presidente Eurico Gaspar Dutra mandou fechar os cassinos, em 1946.

Em 2020, Paulo Guedes, ministro da Economia do governo de Jair Bolsonaro, defendia reabri-los, com o apoio de Arthur Lira, Ciro Nogueira e Flávio Bolsonaro. Já Damares Alves era radicalmente contra.

O projeto que legaliza os jogos de azar foi aprovado pela Câmara Federal, inclusive com votos da bancada evangélica, e hoje tramita no Senado.

Em 2018, Michel Temer legalizou as bets e, em 2023, Lula regulamentou o setor e incluiu na legalização as apostas online.

Ou seja, o poder da jogatina é tão formidável que conseguiu “convencer” políticos de diferentes tendências, e religiosos, normalmente conservadores nas pautas de costumes, que colocar o povão a queimar dinheiro em apostas é perfeitamente aceitável.

Diante do escândalo do vício no jogo e do endividamento das famílias, apressaram-se todos a “exigir” que as bets advertissem que “aposta não é investimento”.

Puxa, quanto rigor… Aliás, se eu fosse fabricante de cigarros, reivindicaria uma mudança nas frases do Ministério da Saúde nos maços, para alguma coisa como “Cigarro não é alimento”, por exemplo.

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