Especialista explica como símbolo cultural amplifica críticas e debate sobre identidade
A nova camisa da Seleção Brasileira, criada pela Nike para a próxima Copa do Mundo, tem gerado repercussão nas redes sociais desde o lançamento. O modelo passou a ser alvo de críticas principalmente pelo uso da expressão ‘Vai Brasa’ em referência ao país, além da presença do logo da Jordan Brand no uniforme variante.
Assinada pela designer brasileira Rachel Danti, a peça propõe uma releitura contemporânea da identidade da seleção, dialogando com códigos do streetwear. A escolha estética, no entanto, dividiu opiniões entre torcedores e público, que questionam o afastamento de elementos mais tradicionais associados à camisa.
“Os símbolos tidos como culturais e sociais ganham esse status a partir da compreensão, da identificação e da validação que o público atribui a eles. Eles fazem parte da identidade das pessoas e das suas comunidades”, afirma Maria Carolina Cavalcante Dias, professora de comunicação e publicidade e da pós-graduação em negócios e marketing da ESPM.
Segundo a especialista, mudanças que não dialogam com esse repertório tendem a gerar rejeição. “No caso da realização de mudanças não acordadas com as comunidades às quais determinados símbolos pertencem, elas podem não ser validadas por esse público”, completa.
Nas redes, parte dos usuários aponta que a expressão não é amplamente utilizada no cotidiano, o que indicaria um descompasso na tradução da cultura brasileira em um símbolo tão representativo.
Segundo um estudo da doutora em marketing e professora da FGV, Lilian Carvalho, em parceria com a Polis Consulting, no ambiente online, especificamente nas redes sociais, o sentimento de reprovação foi observado em 75% das menções ao tema, entre os dias 21 e 25 de março, em plataformas como Instagram, Facebook e X (ex-Twitter).
O estudo analisou 180 mil posts relacionados à nova camisa desde o seu lançamento. Dentro desse recorte, a pesquisadora destaca que 40% dos usuários demonstraram “raiva” e 32% “nojo” especialmente em relação ao termo “Brasa”.
Ainda segundo o levantamento, apenas 3% dos posts fizeram menção positiva ao tema, com sentimento de “alegria”, e os demais 22% foram classificados como neutros.
Tiago Leifert, por exemplo, comentou no programa Tiagol que “o negócio do ‘vai Brasa’ realmente é um problema. Na pesquisa da Nike apareceu ‘vai Brasa’ por causa desses social media desgraçados do Instagram”.
Por outro lado, também circulam publicações que resgatam o uso do termo pela própria CBF em comunicações anteriores, como durante a última Copa do Mundo.
Vamos juntos, meu Brasa! 💛
— brasil (@CBF_Futebol) November 28, 2022
📷: Lucas Figueiredo / CBF pic.twitter.com/Dxn4fMrrnY
Esse tipo de reação pode, inclusive, impactar decisões da própria comunicação. Segundo a colunista do UOL Alicia Klein, a expressão “Vai Brasa”, que chegou a aparecer nos meiões e na parte interna da camisa, deixou de ser exibida na peça e passou a figurar apenas na coleção promocional.
Procurada pela reportagem, a Nike, via assessoria de imprensa, não retornou até o momento de publicação desta matéria.
Maria também aponta que o momento atual influencia a percepção. “Estamos vivendo um momento social no Brasil onde estamos nos observando com mais cuidado, elaborando mais sobre a nossa identidade”, diz.
A adoção do logo da Jordan Brand, já presente em outras iniciativas da Nike no futebol, também entrou no debate. Enquanto parte do público vê a escolha como uma aproximação com o universo do streetwear, outros interpretam como um desvio da identidade clássica da Seleção Brasileira.
A campanha de lançamento também contou com a participação da cantora Ludmilla, integrante do squad da Nike, que aparece como um dos rostos da divulgação, reforçando a estratégia da marca de se aproximar da cultura pop e de um público mais jovem.
Nesse cenário, a tentativa de aproximação com novos códigos culturais pode ter efeitos distintos. “Os dois efeitos são possíveis. O que é necessário observar é o contexto no qual esses novos símbolos são introduzidos e como as mudanças são implementadas”, afirma a professora.
A especialista reforça que o envolvimento do público é central nesse processo. “O público cria os significados junto com as marcas. As escolhas precisam se manter representativas da identidade central para evitar a descaracterização”, conclui.
Imagem do topo: Reprodução/Instagram: @brasil