A busca por uma rotina equilibrada nas redes sociais tem provocado um efeito contrário ao bem-estar para parte dos brasileiros. Segundo levantamento do PiniOn, empresa especializada em comportamento do consumidor, 61% dos entrevistados afirmam sentir pressão para manter uma rotina considerada equilibrada, especialmente entre mulheres e adultos de 18 a 34 anos.
O fenômeno está relacionado à exposição constante a conteúdos sobre alimentação, exercícios físicos e autocuidado. Em vez de inspirar hábitos mais saudáveis, esse tipo de conteúdo pode estimular comparação, cobrança e culpa entre usuários que sentem dificuldade em reproduzir os estilos de vida apresentados nas plataformas digitais.
Instagram, TikTok e YouTube aparecem entre os ambientes mais associados a esse comportamento. O Instagram foi apontado por 48,1% dos participantes como a plataforma que mais estimula a comparação. Na sequência aparecem TikTok, com 38%, e YouTube, citado por 31,1%. Entre os mais jovens, o TikTok apresenta maior influência nesse processo. Já entre os entrevistados de 25 a 34 anos, o Instagram se destaca como principal plataforma relacionada à comparação.
Redes impactam percepção sobre estilo de vida
O levantamento também mostra que a exposição a diferentes rotinas nas redes sociais interfere na percepção que os usuários têm sobre o próprio estilo de vida. Cerca de 59,7% dos entrevistados afirmam comparar sua rotina com a de outras pessoas, seja frequentemente ou de maneira ocasional.
Essa comparação está associada a diferentes sentimentos. Insegurança aparece em 47,6% das respostas, seguida por ansiedade, com 42,2%, e angústia, mencionada por 23,7% dos participantes. Os índices são especialmente relevantes entre mulheres e jovens adultos.
Os resultados indicam que a pressão não está apenas relacionada à aparência física. A comparação também envolve produtividade, alimentação, exercícios, lazer e outras dimensões do cotidiano, criando uma percepção de que existe um modelo ideal de rotina que precisa ser alcançado.
Para a antropóloga e CEO do PiniOn, Talita Castro, o ambiente digital tem contribuído para criar uma percepção idealizada do autocuidado. Segundo ela, as redes sociais apresentam, diariamente, imagens e vídeos que associam sucesso pessoal a hábitos considerados saudáveis como treinos, alimentação regrada, skincare e momentos de descanso cuidadosamente planejados. “Essas plataformas reforçam aquela ideia de equilíbrio difícil de alcançar e, muitas vezes, distante da realidade da maioria das pessoas. Aquela história de que temos as mesmas 24 horas. Com isso, práticas que deveriam promover descanso e autoconhecimento acabam sendo encaradas como metas de desempenho”, explica.
Autocuidado também vira conteúdo
A lógica das redes sociais também influencia a maneira como os brasileiros vivenciam práticas de autocuidado. De acordo com a pesquisa, 39,9% dos entrevistados afirmam realizar atividades pensando em publicá-las nas plataformas digitais.
Outro dado aponta para uma mudança na relação entre aparência e bem-estar: 39,2% dos participantes dizem dar mais importância à aparência do que ao próprio bem-estar.
Os números mostram como práticas associadas originalmente ao autocuidado podem assumir uma dimensão de exposição e validação social quando transportadas para o ambiente digital. Nesse contexto, atividades relacionadas a alimentação, exercícios e cuidados pessoais deixam de ser apenas experiências individuais e passam também a funcionar como conteúdo para as redes.
“É bem comum a necessidade de buscar aprovação de outras pessoas e o algoritmo das redes sociais alimenta essa pressão e a autocrítica, virou um hábito nas redes. Mas, por outro lado, também conseguimos visualizar uma gama de pessoas que conseguem sair “ilesas” disso. São pessoas que sabem que solidez financeira, aceitação dos próprios limites, gestão emocional e bem-estar é mais prioritário do que status de internet”, conclui a especialista.




