Desde fevereiro deste ano como CEO do D&AD, David Patton afirma que uma das suas prioridades à frente da organização inglesa é continuar investindo na geração mais jovem por meio de programas educativos e ampliar a atuação global. Para o executivo, os atuais desafios da indústria criativa são os mesmos que todos enfrentam. “Há pressões políticas, econômicas, sociais e também tecnológicas. Mas, como disse, ao longo da história e das gerações – inclusive na história recente -, sempre foi assim. E a criatividade sempre prosperou”. Ele também tem uma visão otimista em relação à IA. “A IA não substitui a criatividade, nem necessariamente a potencializa. É mais uma ferramenta que os criativos podem usar e explorar. Mas, de uma perspectiva criativa, a IA não vai dominar a indústria criativa”, afirma.
Como transportar sua experiência como líder de grandes marcas e agências para o D&AD?
Antes de entrar para o D&AD, minha trajetória profissional foi bastante variada. Sempre atuei no setor criativo, mas em diferentes áreas da indústria — especialmente em tecnologia criativa. Comecei trabalhando do lado do cliente, na PlayStation e na Sony Electronics (Sony Europe), onde atuei por cerca de dez anos. Depois disso, entrei para o setor de publicidade, trabalhando na Grey, onde liderei as operações na Europa, no Oriente Médio e na África. Mais tarde, fui para a Wieden & Kennedy como presidente global e, mais recentemente, atuei na indústria de produção, abrangendo tanto os segmentos de efeitos visuais (VFX) quanto os de animação. Portanto, acredito que sempre estive na vanguarda da criatividade e da tecnologia. Mas acho que o que a minha experiência me permite fazer é trazer uma capacidade de enxergar a criatividade sob uma ótica diferente. E, sabe, ter realmente a oportunidade de compreender a criatividade sob a ótica dos negócios, da produção e, obviamente, da publicidade. E, dependendo das circunstâncias ou das conversas e discussões em andamento, acho que isso realmente me ajuda a apresentar um ponto de vista, a oferecer uma perspectiva. Além disso, é claro, ter um certo nível de credibilidade — no contexto da minha posição sobre criatividade ou ao oferecer essa perspectiva sobre o assunto. Não sou um criativo, mas tenho uma verdadeira paixão pela criatividade. Tenho uma paixão genuína por tecnologia e por inovação, além de uma paixão pelos negócios. Sempre gostei de unir esses diferentes elementos; tive a sorte de conseguir fazer exatamente isso ao longo da minha carreira.
Quais transformações você quer trazer para o D&AD?
Acredito que a D&AD seja a organização criativa mais respeitada do mundo. Eu me sinto inspirado pelo que ela representa e pelo trabalho que realiza. Acredito que a oportunidade consiste justamente em aproveitar essa energia e essa reputação para construir algo novo, e espero poder contribuir para isso.
Que oportunidades enxerga?
Vejo oportunidades reais para a D&AD expandir sua presença ao redor do mundo. Certamente nos EUA, e também por toda a América do Sul, na Ásia e, de fato, no Oriente Médio, há muito interesse em trabalhar com a D&AD. Por isso, acho muito importante difundir a mensagem criativa pelo mundo. A D&AD realiza projetos realmente interessantes e importantes por meio de suas academias, iniciativas educacionais e programas de aprendizado, além de apoiar as indústrias criativas e ajudar a trazer sangue novo para esse setor. Realizamos uma série de programas, como o Shift. É realmente empolgante levar o programa até mentes criativas brilhantes — que talvez não estejam acostumadas a esse setor — e dar a elas a oportunidade de entender o nosso negócio e a dinâmica da indústria criativa, além de permitir que trabalhem com algumas das maiores marcas criativas do Brasil e do mundo. E a taxa de sucesso é realmente alta. O objetivo do Shift é permitir que essas pessoas, vindas de diferentes comunidades e contextos, consigam empregos na indústria criativa. E o sucesso do Shift se reflete no fato de que 90% a 95% dos participantes conseguem tirar proveito disso. E quanto mais programas Shift realizarmos ao redor do mundo, melhor será — não apenas para as pessoas envolvidas no programa, mas também para a indústria como um todo. Afinal, a criatividade é, na essência, uma celebração da diversidade.
Quais são os planos de expansão para o festival?
O festival é uma parte muito importante do D&AD porque permite que muitas pessoas de diversas áreas da indústria criativa se reúnam para celebrar a criatividade. Acredito que o papel do festival é crucial e trata-se de como podemos usá-lo para disseminar a presença e a reputação da D&AD pelo mundo. Então, vamos ver como podemos continuar a expandi-lo. Mas, mais importante ainda, se podemos levar esses elementos especiais do festival para outros países e outras regiões. O festival dura apenas cerca de dois dias por ano, mas queremos que o D&AD tenha presença durante o ano todo. Eu acho que a oportunidade é usar o festival como um meio de garantir que possamos promover a organização em todo o mundo e levar a essência do festival para outros países.
E como tem sido substituir Dara Lynch como CEO?
A D&AD é uma organização fantástica e muito dinâmica. E existe desde 1962. Conta há 64 anos com o apoio da comunidade criativa. Temos um conselho administrativo fantástico. É um momento muito interessante para entrar na D&AD porque há muita discussão sobre tecnologia, obviamente, mas também muitas discussões econômicas e discussões mais amplas sobre as condições gerais de negócios e de mercado. Portanto, este é o momento perfeito para eu entrar no negócio.
E o que você acha da IA para esse setor?
Tenho uma visão muito positiva sobre a IA. Acredito que, como ferramenta de produção, ela certamente desempenhará um papel importante na indústria criativa. Para ser bem sincero, não há como pensar de outra forma, pois ela já é uma realidade. E, sem dúvida, terá um impacto. Acredito que ela será uma ferramenta útil e produtiva para a comunidade criativa. A IA não substitui a criatividade, nem necessariamente a potencializa. Mas é mais uma ferramenta que os criativos podem usar e explorar — e, em alguns casos (embora não em todos), utilizar para aprimorar o trabalho que estão produzindo ou criando. Portanto, é apenas mais uma oportunidade para os criativos demonstrarem sua capacidade criativa. Mas, de uma perspectiva criativa, a IA não vai dominar a indústria criativa. Não acho que as pessoas devam se sentir ameaçadas ou intimidadas por ela. Vejo uma grande oportunidade de abraçá-la e ver o que ela traz. Não penso que as pessoas se sintam ameaçadas ou irritadas com isso de forma alguma. E não acho que as pessoas vejam isso como uma ameaça à sua capacidade de criar ou elaborar ideias brilhantes. Concordo com a maioria das pessoas com quem converso: não acho que a IA, neste momento, possa substituir a criatividade humana. Não acho que ela funcione nesse nível para tudo. Sempre houve inovação nesse setor. Sempre houve avanços tecnológicos e novas formas de fazer as coisas. E, na minha opinião, isso nunca diluiu a qualidade do ofício, do trabalho ou do resultado final. Acredito que a IA terá suas utilidades. Certamente ajudará, em certas situações, na criação de ideias brilhantes e terá um impacto — de maneiras que ainda não conhecemos nem compreendemos. É isso que torna tudo tão empolgante. Porque tudo isso gira em torno de abraçar o futuro, de inovação e de oportunidades criativas. Mas, do ponto de vista criativo e da criatividade, não sinto que haja qualquer motivo para se sentir ameaçado.
Leia a íntegra da matéria na edição impressa do dia 17 agosto.





