Philippe Degen, diretor de criação da Talent: “o brasileiro ouve as ondas do dial pelo país afora”Cannes pode não ter o mesmo glamour de outras épocas (algo que também ocorre no festival de cinema, e não só na área de comunicação com o Cannes Lions). Porém, continua valorizando seus profissionais. Caso de Philippe Degen, diretor de criação da Talent, que em 2012 assinou, ao lado do COO e CCO da Talent, João Livi, e do atual VP de criação da Lew’LaraTBWA, Felipe Luchi, um dos trabalhos mais importantes da história brasileira no Festival Internacional de Criatividade. “Rádio repelente”, para a revista Go Outside, foi um trabalho de uma mídia tradicional totalmente interativo e participativo. Para Degen, o rádio é uma mídia regional, marginal e “mais caipira”. A seguir, o criativo conta o que espera do Radio Lions na edição de 2015 do evento.

MÉRITO
“Sim, Cannes ainda escolhe profissionais por meritocracia. Não pode ser apenas coincidência o fato de o Livi ter sido o jurado brasileiro em Radio em 2013 e o Luchi no ano passado. Éramos os três criativos do case vencedor do GP e de mais um Leão de ouro em 2012. Tivemos a honra de ser escolhidos pelo Estadão (representante oficial do Cannes Lions no país) e ter a aprovação do festival. Estou bem feliz.”

CASE
“Realmente, ‘Rádio repelente’ (que trabalhava com uma frequência que espantava mosquitos sem que as pessoas pudessem escutar) foi algo mundialmente diferente. Mas sabe aquela velha história que os publicitários dizem que a boa ideia é que decide o valor de um prêmio? Pois é, continua valendo. Não mudamos a história da área com aquela campanha. Apenas tivemos uma ideia muito bacana. Tanto que, em 2013 e 2014, spots tradicionais foram vencedores do Grand Prix. No ano retrasado, com o multipremiado ‘Dumb ways to die’, um jingle tradicional e uma trilha espetacular (foi o case mais premiado da história de Cannes, com mais de 20 Leões e cinco GPs, em trabalho da McCann Melbourne para o metrô da cidade australiana). E no ano passado foi outra série, usando o bom humor, de comerciais típicos para o meio rádio, criada pela Ogilvy sul-africana.”

ÁFRICA DO SUL
“Não entendo como ganham tantos Leões em Radio, rivalizando com os Estados Unidos. Ninguém entende (risos). Já falaram que é um país que, por ser de terceiro mundo, se aproveita de mídias mais baratas. Até aí, nós também somos. É que realmente temos o diferencial de uma TV aberta forte. E, mesmo assim, não resulta tanto em prêmios. Mais uma prova de que, realmente, é a ideia que vale. Não o meio.”

BRASIL
“Deveria usar o rádio na publicidade com mais intensidade, qualidade e valor. Fazer com que esta importante mídia tenha o mesmo esmero que a TV e o print têm na hora de se criar para ela. Não há desculpas para isso. O rádio é regional, o brasileiro ouve as ondas do dial pelo país afora. E também nas grandes capitais, caso das marcantes transmissões de futebol, por exemplo, que estão aí há décadas. Ou das radionovelas, que foram precursoras do sucesso da dramaturgia no Brasil, modelo seguido pela TV aberta. E também foi o primeiro meio a casar perfeitamente com a internet. ‘Rádio repelente’ é prova disso.”

GLAMOUR
“Eu adoro o rádio. É uma escola de criatividade pura. Pena, como já disse, ser uma mídia regional e marginal. O rádio é ‘mais caipira’. E bem mais barato que a TV. Até mídias como mobile, eu acredito, pelo modismo do digital, já possuem mais glamour, por exemplo. E falta nele viralização. Fora que o vídeo, por motivos óbvios, é mais atrativo pelos anunciantes.”

SPOTIFY
“Pode ajudar o rádio, mas até o momento não vi fazer nada de mais em termos de novidades para a nossa atividade. E já está aí há um bom tempo (completou um ano de Brasil no final do mês passado).”

TEXTO OU PRODUÇÃO?
“As duas coisas. Em Cannes eles avaliam até o casting de locutores. E quando se consegue juntar, com eficiência e esmero, essas duas características do rádio, junto com uma boa ideia, aí sim está feito um case premiável. Um exemplo disso é ‘Real Man of Genius’, da Budweiser (o trabalho da DDB Chicago, uma produção criada em 1998, tem, entre dezenas de prêmios, dois GPs em Cannes e outro no Clio).”

PREPARAÇÃO
“Tenho conversado com alguns companheiros de júri, principalmente o Claudio Lima, brasileiro que irá representar os Estados Unidos no júri (ele é CCO da Bravo/Y&R de Miami). Uma grande honra para ele, já que irá defender os trabalhos do país que, ao lado da África do Sul, costuma ter os
trabalhos mais poderosos na área.”

CHANCES DO PAÍS
“Prefiro não falar dos trabalhos da Talent por questões éticas. Mas estamos inscrevendo coisas legais. Então aponto um dos brasileiros que, na minha opinião, é um dos favoritos a Leão dentro dos trabalhos que já ouvi – o ‘Frequência gay’, da Lew’Lara, case para o portal Mix Brasil em parceria com a rádio paulistana de pop rock 89 FM, utilizada como mídia no projeto. A ação contra a homofobia estaria em uma frequência que apenas os gays conseguiriam ouvir. Como isso é impossível, obviamente, serviu de alerta para mostrar que a diversidade existe e que no fundo todos são iguais.”