Alexis Thuller Pagliarini, sócio-fundador da ESG4

Na edição anterior, ocupei este espaço para falar de empatia. A abordagem esteve focada na importância de identificarmos e entendermos as necessidades do outro como forma de aplicar um marketing eficiente.

Quero agora levar a questão da empatia para um patamar acima. Vivemos em uma era de paradoxos desconcertantes. Empresas atingem valuations trilionários enquanto milhões de pessoas não têm acesso a comida, água potável ou moradia digna. O avanço tecnológico e científico nunca foi tão acelerado — mas seus frutos continuam distribuídos de forma escandalosamente desigual, concentrados nos países mais ricos e inacessíveis a grande parte da humanidade. É verdade que, em termos históricos, a humanidade avançou. A expectativa de vida aumentou, doenças antes fatais foram erradicadas ou controladas, e a conectividade digital aproximou culturas e democratizou o acesso à informação. Mas esse progresso é seletivo.

Para bilhões de pessoas na África Subsaariana, no sul da Ásia e em periferias urbanas ao redor do mundo, a realidade cotidiana ainda é marcada pela fome, pela violência estrutural e pela ausência de perspectivas. No centro desse abismo social, reside um problema profundo de empatia. Parcelas significativas da elite econômica global vivem em uma bolha de indiferença, priorizando a acumulação de riqueza sem questionar o custo humano e ambiental desse processo.

Não se trata apenas de individualismo — trata-se de uma escolha sistemática de não ver. O fosso entre os mais ricos e os mais pobres não para de crescer, e o silêncio diante disso é uma postura política e moral. Segundo o relatório da Oxfam de 2024, os cinco homens mais ricos do mundo dobraram suas fortunas desde 2020, enquanto a riqueza de cinco bilhões de pessoas diminuiu no mesmo período.

Esses números não são coincidência — são consequência de um sistema que foi desenhado, ou ao menos tolerado, para funcionar assim. Por outro lado, o negacionismo climático que persiste em círculos políticos e empresariais influentes não é apenas ignorância — muitas vezes, é conveniência. Ignorar a degradação acelerada do planeta é, no fundo, uma forma de violência intergeracional.

As gerações futuras herdarão os danos de um ecossistema comprometido por décadas de exploração irresponsável. Secas, enchentes, migrações climáticas em massa e a extinção de espécies não são previsões distantes de cientistas alarmistas — são realidades documentadas que se intensificam a cada ano.

Desdenhar esses dados é uma escolha que tem vítimas concretas, mesmo que elas ainda não tenham nome. Diante desse cenário, a adoção de princípios ESG deveria ser não apenas uma tendência corporativa, mas uma obrigação ética.

O problema é que, para muitas corporações, o ESG ainda é tratado como verniz — um conjunto de relatórios bem elaborados para consumo externo, sem transformação real nas práticas internas. Empresas oportunistas anunciam metas climáticas para 2050 enquanto continuam financiando lobbies contra regulações ambientais.

Divulgam programas sociais pontuais enquanto mantêm cadeias de fornecimento baseadas em trabalho precário. A distância entre o discurso e a prática é, ela mesma, uma forma de desonestidade institucional.

A mudança que o mundo precisa não virá apenas de governos ou de organismos internacionais. Ela exige uma transformação cultural nas elites econômicas — uma disposição genuína de enxergar além dos próprios portfólios e reconhecer que prosperidade sustentável só é possível numa sociedade minimamente justa. Empatia não é fraqueza nem ingenuidade. É, na verdade, o fundamento de qualquer projeto civilizatório que mereça esse nome.

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