Flavio Ferrari, sócio da SocialData

Em 2025, a OMS (Organização Mundial da Saúde) reconheceu a solidão como uma epidemia global e criou uma Comissão Internacional para Conexão Social, publicando um extenso relatório sobre o assunto (https://www.who.int/groups/commission-on-social-connection/report). Nunca estivemos tão conectados tecnologicamente e, ao mesmo tempo, tão sozinhos. Esse isolamento é sintoma de uma transformação civilizacional profunda que merece nossa atenção.

Nas últimas décadas, fomos alimentados pela promessa sedutora de que o paraíso na Terra seria possível. Felicidade plena, corpo perfeito, sucesso absoluto, liberdade total, em uma sociedade harmônica, diversa, acolhedora e protetora – tudo isso seria possível.

Quando internalizamos a ideia de que podemos ter tudo, algo fundamental se perde: a capacidade de aceitar limites, de fazer escolhas, de amadurecer. É a juvenilização de que nos fala Edgar Morin. Recusamos as limitações que nos definem como humanos. E nessa recusa, o outro – que antes era reconhecido como parte essencial de nossa humanidade – passa a ser visto como obstáculo, ameaçando nosso projeto individual de felicidade.

Freud já nos alertava sobre o mal-estar inerente à civilização: viver em sociedade exige renúncias que geram sofrimento. O que ele descrevia era uma cultura neurótica – marcada pelo conflito entre desejo e lei, entre impulso e norma social. Jean-Pierre Lebrun, psiquiatra e psicanalista belga, argumenta que a erosão das referências simbólicas tradicionais (pai, lei, tradição, autoridade) está produzindo subjetividades mais próximas da estrutura psicótica.

Não sofremos mais porque internalizamos proibições; sofremos porque nos faltam os anteparos necessários para nos constituirmos como sujeitos. O paradoxo brutal é que justamente quando mais precisamos do outro, nossa cultura nos leva a vilanizá-lo. As comunidades tradicionais não ofereciam apenas companhia. Eram os lugares onde aprendíamos quem somos em relação aos outros, onde internalizávamos limites e possibilidades, onde encontrávamos sentido compartilhado. O resgate da vida comunitária, portanto, é uma necessidade estrutural para a recomposição do tecido simbólico sem o qual nos aproximamos cada vez mais da desintegração.

Pesquisas recentes indicam uma tendência de redução do tempo dedicado a redes sociais amplas (Instagram, TikTok), e um aumento de interesse por microcomunidades temáticas. Ou seja, mesmo sem qualquer exercício intelectual mais profundo, nasce a percepção de que entre o vazio existencial da promessa narcísica e a plenitude do encontro genuíno, há um caminho: reaprender a viver junto. Ainda que o outro “atrapalhe o meu paraíso”, é a única porta de saída do inferno da solidão.

As comunidades são o futuro regenerativo, e vale a pena estar atento a esse movimento que começa a nascer.

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