Alexis Thuller Pagliarini, sócio-fundador da ESG4
No ano passado, tive a chance de contribuir com o evento Enapro, que reuniu publicitários na Bahia, sob organização do Sinapro/BA. Fiz a curadoria de conteúdo do evento e também atuei como palestrante. O tema adotado para o evento foi ‘De humanos para humanos’.
A ideia era fazer um contraponto ao tsunami digital e de inteligência artificial que invadiu nossas vidas. O evento foi um sucesso! Noto agora que o SXSW, que rolou na semana passada em Austin – EUA, e também o Rio2C, que será realizado em abril, no Rio, estão adotando essa pegada humanista também. Interpreto essa sintonia humanista como uma reação natural dos humanos frente à onda imparável da IA e da automação nos negócios e na vida mesmo.
Essa overdose de automação, imagens fabricadas pela IA, robotização e tecnologia, parece esgarçar o fio do pêndulo das tendências que, numa reação natural, provoca uma ação contrária, valorizando o que é real, humano de verdade. Imagens mais toscas, com menos recursos, passam a ser vistas como expressões humanas e ganham valor.
Em outra frente, a humanização ganha força na administração de empresas, que começam a entender que, por trás das máquinas, dos algoritmos, existem seres humanos, dos quais continuamos a depender para formatar estratégias, comandar prompts adequados e, principalmente, julgar as soluções geradas pela IA e aplicá-las com eficiência. Não se trata, portanto, de negar a evolução ou resistir à inovação da IA, mas, isso sim, de dar o devido valor à atuação humana no processo. É nesse contexto que o ESG ganha um novo e poderoso aliado: a humanização.
Durante anos, o ESG foi tratado pelas empresas como uma pauta de conformidade, um conjunto de métricas a cumprir para satisfazer investidores e reguladores. Mas o momento atual exige mais. Exige que o “S” de Social deixe de ser uma coluna de relatório e passe a ser uma prática viva, sentida por colaboradores, clientes e comunidades. Humanizar é, em essência, tornar o ESG verdadeiro. Empresas que investem genuinamente em diversidade, em saúde mental, em ambientes de trabalho que respeitam o tempo e a dignidade das pessoas, estão, na prática, aplicando a humanização como estratégia de negócio. E os resultados aparecem: maior engajamento, menor rotatividade, mais inovação.
Não por acaso, pesquisas recentes apontam que organizações com alta pontuação no pilar social do ESG tendem a apresentar desempenho superior em períodos de crise. O humano, bem tratado, performa melhor — inclusive diante das máquinas. Nesse cenário, a criatividade emerge como o valor humano por excelência. Se há uma fronteira que a inteligência artificial ainda não cruzou com autonomia genuína, é a da criação com propósito emocional.
A IA pode combinar, recombinar, otimizar e surpreender — mas parte sempre de um repertório alimentado por humanos. A centelha original, a metáfora inesperada, a campanha que toca a alma de uma geração: isso ainda nasce de mentes humanas, formadas por experiências, afetos, contradições e história. A criatividade não é apenas um talento artístico. É uma competência estratégica.
No universo da comunicação, do design, do marketing e da gestão, criar soluções novas para problemas antigos — ou perceber problemas que ainda não foram nomeados — é o que diferencia empresas vivas de empresas apenas operacionais. E cultivar ambientes criativos exige, antes de tudo, humanização: escuta, confiança, espaço para o erro, valorização da diversidade de perspectivas. O pêndulo, portanto, não oscila contra a tecnologia. Oscila em direção ao equilíbrio.
A IA e a automação são ferramentas extraordinárias nas mãos de pessoas extraordinárias. O que o Enapro, o SXSW e o Rio2C parecem anunciar em uníssono é que o próximo ciclo de inovação não será protagonizado por algoritmos mais rápidos, mas por organizações mais humanas — capazes de usar a tecnologia sem perder a alma. Humanização está on.
Imagem do Topo: Divulgação