No filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau, da década de 70, quando a nave finalmente pousa e abre suas portas, saem de dentro, inicialmente, pessoas que haviam desaparecido da Terra em tempos e lugares diversos nos últimos 50 anos. Andam devagar, meio que tentando entender o que aconteceu, onde estão, assustados e curiosos, a um só tempo. Aos poucos vão sendo acolhidos pela equipe que compareceu ao local para fazer o contato. Na sequência saem da nave seres extraterrestres inspirados num menino recentemente desaparecido. São uma mistura de humano e extraterrestre.

Na nossa visão do futuro, a volta ao cotidiano fora do confinamento será mais ou menos assim. Resta saber se sairemos como pessoas que passaram um tempo fora do mundo ou como uma mistura de quem já vivia aqui e quem veio de outro lugar. Do futuro, talvez. 

Que não vai ser igual, é fato. Já ouvimos isso nas mais distintas construções. Geralmente junto com o já clássico “vai passar”. Vai. E o que vamos fazer quando passar?

Diferentemente de algumas previsões, por exemplo, em Portugal, a abertura não levou as pessoas para as ruas, não ficaram mais cheios os restaurantes. O índice de circulação cresceu muito pouco, cerca de 2%. Os restaurantes ainda estão vazios, as barbearias operam 40% abaixo do que era o volume antes da pandemia. Existe a vontade, mas existe o medo, muito forte. E aqui, provavelmente, será semelhante.

Para um grupo em especial, aqueles acima de 60 anos, as questões são ainda mais críticas. Não só pelo medo, mas pelas restrições de circulação que vão continuar por mais tempo. Fácil imaginar o impacto disso no trade turístico, por exemplo.

O comportamento do consumidor, não obstante as visões otimistas, será realmente de mais empatia, de marcas com propósitos mais definidos, de um sentimento coletivo mais presente, neste futuro próximo?

Impossível a essa altura, mesmo com tantas previsões sobre o novo normal, definir com precisão como será a vida cotidiana daqui pra frente. Entretanto, por mais incongruente que possa parecer, temos de pensar no médio e longo prazo, com agilidade para a mudança do dia a dia.

A única previsão que podemos fazer é que o mundo, e a vida de todos nós, vai continuar sendo do jeito que sempre foi: imprevisível. Conviver com o caos, em maior ou menor dimensão, não é um desafio. É necessidade.

Mas como pensar no médio e longo prazo com essa revolução a cada instante? Qualquer marca é uma construção no tempo. Pensar a marca daqui a 2 ou 3 anos não significa uma sentença irrevogável, mas ajuda no entendimento do propósito, dos valores, da relação com as comunidades, ou das comunidades onde está presente.

Agora, durante o confinamento, ficou ainda mais evidente que esse conjunto que estrutura e orienta a jornada da marca é um farol, que ajuda a caminhar mesmo quando tudo parece perder o sentido. Afinal, este é um dos papéis primários das marcas: deixar seguro aquele que as escolhe. E considerando o período que estamos ainda vivendo, as marcas que se mostraram ativas, responsáveis, neste momento, sairão, com certeza, mais bem colocadas nas mentes dos consumidores e clientes.

O mesmo vale para as empresas e pessoas. Aquelas que atuaram, que foram ativadas, que pensaram, olharam, buscaram, também vão sair melhor. 

Mas essa é a próxima conversa.

Esse artigo faz parte da série “Sabemos que vamos mudar, mas como isso vai acontecer na prática?”, que traz reflexões, aprendizados e transformações trazidas por esse momento inédito da pandemia. O conteúdo é assinado por Marco Antonio Vieira Souto, Head de Estratégia do Grupo Artplan.

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