Novembro chegou e com ele o famigerado 20 de novembro, data em que é celebrado o Dia da Consciência Negra. Justamente neste mês, um vídeo polêmico sobre o tema racismo circulou entre publicitários e profissionais do marketing.

Nele, Enio Mainardi, conhecido profissional de propaganda que faleceu recentemente por conta da Covid-19, proferiu opiniões controversas sobre a presença do negro na publicidade. “Eu, pessoalmente, não botaria um preto nos meus comerciais porque eu acho que o preto desvaloriza o produto anunciado”, disse Mainardi. “Eu acho que as poucas vezes que o preto apareceu num comercial, ele apareceu pra compor politicamente… E mais: o negro não quer ser negro, né?”, questionou.

A fala foi feita em 1988, no documentário O Brasil Negro, produzido pela Fundação Padre Anchieta, por ocasião do centenário da abolição da escravatura. Mainardi estava afiado naquele ano. Em entrevista à revista Propaganda do mesmo período, ele disse que a profissão não era “revolucionária” e vivia de “clichês sociais” e “preconceitos”. “Só mostrando aquilo que as pessoas querem ver. Nos comerciais, as pessoas querem se ver representadas, numa verdadeira projeção psicanalítica, como lindas, ricas, poderosas. E os pretos são pobres, meu amor”.

Alguns ainda pensam dessa forma no meio publicitário? É provável. Mas a evolução de pensamento é notória. Algo marcante: hoje os próprios pretos juntam forças em coletivos organizados. Vide os Publicitários Negros. Aliás, muitas vezes, os pretos se unem na própria agência e com anuência dos líderes, como no caso da Ogilvy, com o Eixo Benguela, ou da Thompson, uma das precursoras dos movimentos a favor da negritude.

Mas isso não ocorre por acaso. Se há um ponto em que Mainardi tinha razão é que a publicidade não é revolucionária. Ela age conforme o jogo e, consequentemente, fatura alto com isso. Ou você acha que a Magazine Luiza quer trainees negros para ficar bem na foto? Também. Mas o objetivo é dar à marca uma visão mais plural e, consequentemente, dialogar de maneira mais adequada com o público negro.

Não é caridade. Segundo dados do Instituto Locomotiva, a população negra movimenta R$ 1,9 trilhão em renda própria por ano no Brasil. Quem não quer comunicar do jeito certo para este público? Qual marca seria louca de ignorar essa parcela da população? Repare bem nos comerciais veiculados neste 2020 na TV aberta brasileira. Quase todos têm, pelo menos, um negro. Também pudera: eles são maioria na população, segundo o IBGE. Muito se deve ao efeito George Floyd, é verdade, mas é um movimento que, provavelmente, não vai recuar.

Para refletir: recentemente, a cantora Iza foi escolhida como diretora criativa da marca Olympikus; a filósofa Djamila Ribeiro ilustrou a capa da nova Elle; o casal Taís Araújo e Lázaro Ramos fez uma campanha para a marca Doril. A atriz, aliás, doou seu cachê de uma campanha para o BV para iniciativas de combate ao coronavírus. O valor não foi revelado, mas atingiu R$ 1 milhão; o rapper Emicida se orgulha do preço das roupas de sua marca, a Laboratório Fantasma, com camisetas que custam até R$ 129,90. “Eu conheço a cadeia produtiva com a qual eu trabalho, eu sei quanto ganha uma costureira, por exemplo. Eu não vou vender uma camiseta a R$ 9,90 para colocar uma mulher ganhando salário de miséria”, afirmou o rapper em entrevista ao Roda Viva. Mainardi nunca imaginaria que pessoas “lindas, ricas e poderosas” seriam sinônimos de pretos, não é mesmo? Aparentemente, os pretos querem ser cada vez mais pretos. Pois é.

O mundo não gira, ele capota.

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