Preservar consistência de foco é um megadesafio, muito especialmente para empresas vencedoras. E assim, em vez de concentrar-se em seu modelo original com todos os aperfeiçoamentos necessários, o Airbnb de dois anos para cá começou a derivar, perigosamente. Começo a desconfiar que os negócios disruptivos vão trabalhar com dois focos. O que origina o negócio, disruptivo, detonador, que arrebenta cadeias de valor, que vale-se da impunidade por ausência total de regulação em alguma iniciativa que não se previra porque não existiam as plataformas e a tecnologia engatinhava, pega todos de surpresa, e a ação é devastadora.

E, depois, quando a ficha cai, os demais players acordam, o estado quer seus impostos, os incomodados colocam a boca no trombone, e é aí, exatamente nesse momento, que se vai descobrir se a startup tem consistência em sua disrupção ou se só disrupta, mata e morre. Tipo, Carcará! Airbnb, disrupta, mata e morre! Claro, na voz da Bethânia. Diante de alguns problemas enfrentados na Europa e muito especialmente nos Estados Unidos, o Airbnb passou a incorporar prédios que teriam como vocação principal ocupação temporária. Mais adiante comprou dez andares no Rockefeller Center, e escancara sinais de demência precoce. E, agora, cria uma tabela de preços específica, para aqueles que, ao nascer, converteram-se em seus maiores inimigos, os hotéis, para que os hotéis captem hóspedes, também, pela sua plataforma. Curto e grosso, o Airbnb pirou!

Mesmo considerando-se que o objetivo final é o mesmo, vender diárias para hospedagens, uma coisa é prestar esses serviços para os milhões de proprietários de imóveis em hoje praticamente todo o mundo. E outra é inserir-se no trade de reservas, prestando serviços para as grandes cadeias hoteleiras, e concorrendo com Expedia, Booking e duas dezenas mais. Um pé em cada canoa! Costuma não dar certo. Lembram, Kodak? Quando decidiu migrar para as digitais a sua invenção e obra, já era tarde demais. Afogou-se. Confiariam os hotéis no aplicativo que colocou em risco todo o business de hotelaria?

O quanto essa investida não vai enfraquecer o Airbnb em seu modelo original e junto aos milhões de proprietários que confiaram no aplicativo? Ou, finalmente, teria o Airbnb, diante das grandes confusões que vai produzindo no mundo inteiro, com brigas monumentais entre as pessoas que compraram imóveis e moram nos imóveis, com investidores que também compraram imóveis no mesmo edifício, mas, e através do Airbnb, alugam por dias para estranhos, concluído que no médio e longo prazo seu modelo disruptivo não suportará as pressões de proprietários moradores, devidamente amparados pelas prefeituras de cada cidade?

Residência, ainda que provisória, é residência; casa de tolerância, pensão, hospedaria e motel, é outra, completamente diferente. Tirem as criancinhas e os idosos do corredor! Ou seja, conforme mais que previsto, a hora da verdade dos disruptivos vai se aproximando. Brevemente, o final do primeiro ciclo onde, finalmente, constaremos quais os disruptivos que tinham, e quais os que careciam de consistência e sustentabilidade.

Quais tinham e têm, de verdade, café no bule. Os fundamentos dos negócios não foram revogados. E nesse ritmo, o Where is the Beef do Airbnb existia, mas, passado o efeito surpresa, vai se dissipando, sumindo, evaporando. Beef que é bom… Só que a essa altura dezenas de gestores de investimentos aplicaram centenas de milhões de dólares no aplicativo… Ou seria, air, to be or not to be?

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