Igor Ferreira, sócio e diretor executivo da Corazon Filmes e Grupo Dale!

Já estamos cansados de saber que o mercado de produção publicitária passa por uma transformação irreversível. A pergunta é simples: quem está acompanhando e quem está resistindo?

Algumas décadas atrás, as produtoras eram verdadeiros templos. Estruturas fixas, processos robustos, hierarquias claras. Esse modelo funcionou, até deixar de fazer sentido. Com o tempo, vieram formas mais flexíveis de contratação, o trabalho remoto impulsionado pela pandemia e, agora, a inteligência artificial, que apenas acelerou o inevitável: o fim da estabilidade como conhecíamos.

Surgem novas formas de operação: selos, coletivos e redes criativas que atuam com estruturas leves, muitas vezes sem CNPJ, conectadas a produtoras maiores. Isso assusta quem ainda associa valor à rigidez, à formalidade e à sensação de segurança.

Ao mesmo tempo, grandes grupos internacionais de agências seguem o caminho inverso: internalizam a produção, criam hubs e estúdios próprios. O papo deixou de ser fundamentalmente sobre criatividade. Hoje, é sobre margem e controle.

As produtoras ficam no meio desse jogo, pressionadas pela flexibilidade de um lado e pela verticalização do outro. E convenhamos: essa mudança não nasceu agora. Ela é resultado de anos de pressão por custos mais baixos, prazos curtos e um volume cada vez maior de entregas. A IA não criou o problema, só o tornou impossível de ignorar.

O saudosismo aparece porque olhar para trás é mais confortável do que encarar o incerto. Mas proteger o passado não é o mesmo que preservar o que é essencial. Fingir que nada mudou é o caminho mais rápido para perder relevância.

O mercado não segue uma única direção. Ele está se fragmentando. De um lado, estruturas leves e colaborativas. Do outro, empresas que ainda acreditam na força da consistência e da cultura. No meio, grupos tentando controlar o ciclo inteiro.

Relevância hoje se mede pela capacidade de adaptação sem perder identidade. O risco real não está na IA, nem nos coletivos, nem nos hubs. Está em virar refém de um passado que já não responde ao presente.

Em 2026, a Corazon faz 10 anos. Uma produtora que nasceu tentando o novo e apostando em talentos que, naquele momento, ninguém estava olhando. Crescemos desafiando formatos, atravessamos transformações profundas, passamos por uma pandemia e seguimos tentando nos reinventar todos os dias.

Sem apego ao modelo. Sem medo de mudar.

Porque, no fim, não é sobre preservar o que a gente já fez. É sobre ter coragem de fazer diferente de novo.

Imagem do Topo: Divulgação