Flavio Waiteman, sócio e CCO da Tech&Soul

O futebol sempre dá lições que a gente não esquece, pois as aprendemos a partir de sentimentos que começam no estômago. A emoção do esporte vai diretamente para o âmago da gente e só depois sobe para o intelecto. É isso que o esporte, e mais precisamente o futebol, provoca nos seres humanos. É no interior da gente, entre o estômago, os pulmões e pontadas doloridas no coração, que sentimos estados de alteração extremos que vão do medo, pânico e dor da perda ao entusiasmo, euforia e orgulho. Mais orgânico que isso, impossível.

Onde você estava quando Baggio errou o pênalti? O que estava fazendo quando Bebeto comemorou seu gol balançando um bebê invisível no colo? Entretanto, você também se lembra onde estava quando a sequência de gols da Alemanha foi acontecendo na Copa do Mundo do Brasil, não é mesmo? Como doeu aquilo!

Você se lembra desses momentos, pois a gente não esquece daquilo que mexe na nossa alma. E o futebol mexe, remexe e bagunça. E ensina. São lições tão intensas que ganham o direito de não serem esquecidas. Segundo meu pai, que viu o Pelé jogar várias vezes contra o América de Rio Preto, o segredo do melhor de todos os tempos era a sua visão de jogo. Pelé estava sempre “um segundo e meio à frente de todos os outros jogadores”, me disse seu Rubens Waiteman. Só ele via com antecedência o que poderia acontecer e, ao ver, sabia o que deveria fazer com seu talento imenso. Com essa explicação, aprendi que não há brasileiro mais especial do que Pelé e nem jogador de futebol melhor do que ele. Durante anos, tentei desenvolver esse superpoder de ver tudo um segundo e meio antes dos outros.

Em 1982, na Copa da Espanha, experimentei o peso insuportável do primeiro fracasso coletivo nacional perante o mundo. Como aquela seleção brasileira poderia perder um jogo ou uma Copa? Demorei anos para entender que nem tudo no mundo é exatamente do jeito que a gente quer. O fato em si pode ser, e geralmente é, maior do que o desejo de uma nação inteira. Aprendi naquela atrasada grotesca do Cerezo que decepção é algo que deve ser experimentado com intensidade, porém, de maneira breve. No dia seguinte tem outro jogo, outro campeonato. Parmalat compra o Palmeiras. Deixo de torcer para o time da família, por ele ter se “vendido” para uma marca de leite. Aprendi com o futebol que alguns limites são necessários para preservar a cultura e a alma das coisas. Não se deve ultrapassá-los.

Em 2018, um goleiro pega no celular em partida válida para o Campeonato Brasileiro. Uma ação para Uber junto com Athletico Paranaense. Foi uma alegria criar e executar com o time maravilhoso da Tech&Soul um case reverenciado no mundo todo como exemplo do uso do futebol para ativação publicitária. Aprendi que o futebol tem o poder de desarmar as pessoas deixando-as mais autênticas, sinceras e abertas a ideias originais.

Corinthians coloca a estrela de Davi na sua camisa em 2021. O time que havia tirado todas elas abre exceção para lembrar as vítimas do Holocausto, numa ação da T&S para o Memorial do Holocausto. Um simples gesto se torna um movimento global de vários times em diversos países. Ainda hoje, sempre no mês de novembro, vários times no mundo passam a fazer esse aviso e a lembrança sobre a intolerância. Aprendi que qualquer comunicação precisa acontecer primeiro no coração das pessoas para depois subir à cabeça e mudar algo nela. A alma sempre vai ser a alma do negócio da criatividade.

Copa do Mundo de 2026. Acredito que devemos ter alguns aprendizados valiosos nesse evento. Enquanto o mundo se separa cada vez mais, enquanto a honra, a elegância e a empatia vão se tornando fenômenos isolados e raros, a Copa de 2026 vai acontecer em três países diferentes, que até dois anos atrás eram ótimos vizinhos. Não são mais. A confiança se foi. O mundo vai estar de olho nessa Copa e alguns fatos que vão acontecer marcarão nossa época e você vai lembrar deles para sempre. Porém, vejo com otimismo esse evento, pois quando a gente menos espera, o esporte costuma ser um agente de boas mudanças. Vai Brasil!