Com uma semana de portabilidade numérica válida para telefonia fixa e móvel em oito áreas de mesmo DDD do Brasil, o mercado já começa a sentir o aquecimento que esta mudança gerará. Fonte do propmark aponta que há uma estimativa de um aumento de pelo menos 20% na verba de publicidade das teles até março de 2009, quando todo o processo estará concluído no País. No primeiro semestre deste ano, segundo o Ibope, o setor investiu R$ 1,032 bilhão na mídia.
Hoje, a possibilidade da manutenção do número com a troca de empresa já é realidade para 9,6% da população do Brasil, ou seja, para 17,5 milhões de clientes. No resto do País, a portabilidade será implementada entre novembro deste ano e março de 2009, sendo que no Rio de Janeiro (DDD 21) começará em fevereiro e em São Paulo (DDD 11) em março. Mesmo assim, analistas já prevêem uma guerra sem precedentes no mercado de teles, com incremento nas ações publicitárias e uma linha agressiva e comparativa que deverá nortear o segmento a partir de agora.
Até a última quinta-feira (4), a ABR Telecom, entidade que administra a portabilidade numérica no Brasil, registrou 3.835 pedidos de troca de prestadora com a manutenção do número de telefone. Goiás lidera o número de pedidos tanto na telefonia fixa quanto na móvel. Do total de pedidos, 1.185 foram feitos na telefonia fixa e 2.650 na móvel. Mesmo que parcialmente implementada, a mudança já gerou grandes investimentos das operadoras.
A Oi, por exemplo, revelou que investiu R$ 400 milhões para implantar a portabilidade.
Eduardo Tude, presidente da Teleco, acredita que o mercado vai ver uma série de ações das operadoras para reter clientes mais antigos. “Será mais um elemento na competição que, no caso da telefonia celular, já é mais acirrada, com uma guerra forte de promoções. A portabilidade é mais um elemento que deve ajudar as operadoras a conquistar clientes, principalmente os de contas mais altas, que não mudavam de empresa”, argumentou.
Para ele, quem pode tirar proveito maior são as operadoras na chamada Banda A, cuja maior parte dos clientes é da Vivo, e alguns da Tim. “É onde estão os clientes com mais de dez anos em uma empresa, que estão mais apegados aos números”.
Já na telefonia fixa, ele acredita em um movimento diferente. “A questão é até analisar se existe competição realmente em determinada cidade onde os usuários têm telefone fixo. Nestas cidades, as empresas que deverão ser beneficiadas são as autorizadas, no caso a GVT e a Embratel, esta porque tem tanto o Livre quanto o Net Fone. E principalmente com os clientes corporativos, que apresentam receita bem superior à dos clientes residenciais”.
Ele ressalta ainda que o processo da portabilidade está só começando e que os usuários da maior parte das áreas só terão esta possibilidade a partir de novembro, quando poderá ser feito um panorama melhor do processo.
Impacto
De acordo com dados da Teleco, a medida deverá ter um impacto diferente na telefonia fixa e na móvel. Segundo dados da consultoria, 88% da população é atendida por mais de uma operadora na telefonia celular enquanto na telefonia fixa este percentual é de 52%. A Vivo é líder em market share em seis das oito áreas locais que já tem a portabilidade e como operadora de Banda A, a mais antiga, deve sofrer a maior pressão das demais operadoras.
As áreas que já têm a portabilidade representam 10,1% do total de celulares do Brasil. Ainda de acordo com a Teleco, a média na semana passada de pedidos de mudança de operadora com manutenção de número foi de 992 solicitações por dia, sendo 703 do celular e 289 da fixa.
A proporção de solicitações foi de 71% para celular e 29% para fixo, o que acompanha a distribuição de fixos e celulares na região. Se esta tendência se mantiver nos próximos dias, a quantidade de solicitações de portabilidade em um mês será de 0,2% da base de telefones fixos e celulares. Na telefonia fixa, a GVT por enquanto foi a empresa mais beneficiada e na móvel a Claro. Apesar disso, Tude acha cedo para apontar que empresas na telefonia móvel se beneficiarão com as mudanças.
Agitado
O grande movimento de mercado com a chegada da portabilidade numérica deverá realmente ser visto na telefonia móvel. Algumas operadoras já estão com campanhas publicitárias destacando este novo momento. A Claro, por exemplo, tem campanha estrelada pela atriz Mariana Ximenez, com criação da F/Nazca S&S. Segundo fontes do propmark, a empresa investirá uma verba extra em publicidade por conta da portabilidade. Ela fará um aumento gradativo da sua presença na mídia até março de 2009 quando o processo da instalação da portabilidade estará concluído no País.
Através da assessoria de imprensa, a empresa informou que já vem se preparando para o novo cenário que se desenha no mercado de telefonia móvel, muito antes do início da implantação do sistema. “Há dois anos, a operadora definiu como foco estratégico a satisfação de seus clientes, concentrando-se em três fundamentos: inovação, qualidade e promoção”.
Dentro desta filosofia, ela foi a primeira operadora a lançar a rede de terceira geração nacionalmente e conta, hoje, com a maior cobertura 3G do País, presente em mais de 100 cidades. “Em linha com essa estratégia, a Claro foi a primeira operadora a anunciar a venda do iPhone 3G no Brasil. Além disso, mantém seu trabalho na ampliação de sua cobertura GSM”. Entre outras iniciativas para conquistar mercado, ela investe na qualidade do atendimento e na ampliação dos canais de relacionamento com seus clientes. “Paralelamente, a operadora pratica tarifas agressivas, oferece promoções atrativas e amplia seu portfólio de pacotes, possibilitando que seus clientes customizem seus planos de acordo com o perfil de uso”.
Reforçando a briga que travam na Justiça, a Oi discorda da posição da Claro, destacando a importância do desbloqueio em conjunto com a portabilidade. Ela declara, também através da assessoria, que a portabilidade reforça a estratégia de negócios adotada pela empresa há mais de um ano, quando iniciou o desbloqueio gratuito e irrestrito dos aparelhos de seus usuários e passou a vender apenas aparelhos não-bloqueados. “A liberdade de escolha do consumidor será ampliada com o benefício da portabilidade. A conjugação da portabilidade numérica com o desbloqueio de aparelhos permitirá aos consumidores brasileiros usufruir na plenitude de seu direito de escolha. A portabilidade total é o cliente poder escolher a operadora que quiser e levar o seu número e aparelho”.
A empresa informa que, para os consumidores, o desbloqueio de aparelhos associado à portabilidade é que proporcio-na mais vantagens para o usuário da telefonia móvel. “A companhia acredita que as duas práticas representam um ganho para o consumidor, que percebe que essa liberdade exigirá maior es-forço das empresas na prestação de serviços de qualidade. Seguindo essa estratégia, a Oi foca na prestação de serviços, que é o papel das operadoras, e não na venda de handsets, papel dos fabricantes”.
A empresa também está com uma campanha no ar, criada pela NBS. Nela, a Oi reforça a ligação da portabilidade com o desbloqueio. “A Comunicação da Oi reflete sua estratégia de negócio. Nesta nova campanha reforça seu posicionamento e afirma que defende a liberdade total com a portabilidade numérica e portabilidade dos aparelhos, com o desbloqueio gratuito e irrestrito. Para Oi, defender a portabilidade, mas manter aparelhos bloqueados, é oportunismo”.
Fato novo
Já a Vivo destaca que a portabilidade sem dúvida gera uma movimentação importante no mercado. “É um fato novo que o consumidor terá que viver o dia-a-dia para se acostumar. Cria a necessidade imediata de garantir processos de qualidade mais rigorosos, maior fidelizador, o que a empresa oferece e o que o consumidor paga, o famoso custo-benefício”, comentou Carlos Cipriano, diretor da Vivo para o Estado de São Paulo.
Ele informou que a Vivo já estava fazendo um trabalho forte neste sentido nos últimos 12 meses com investimentos para ter um sinal de qualidade e um sistema que permitisse a portabilidade. Sobre comunicação, Cipriano explicou que a operadora está fazendo um investimento nas áreas afetadas, como Bauru e São José do Rio Preto, onde está sendo veiculada uma campanha estrelada pelo apresentador Luciano Huck. “A idéia é ressaltar os atributos e aspectos da marca Vivo, a qualidade de sinal, por exemplo”, disse. Ele acrescentou que, no entendimento da empresa, os aspectos importantes que classificam a Vivo como um player de destaque no mercado serão comunicados ao público conforme a portabilidade vá avançando.
Segundo o executivo, a empresa está investindo com força no atendimento aos clientes e no pessoal que trabalha no ponto-de-venda, para que todas as dúvidas dos consumidores possam ser resolvidas com rapidez. Sobre desbloqueio, a operadora informou que adotou o processo desde que ele foi regulamentado.
Desbloqueio gera briga
O direito ao desbloqueio de aparelhos de celular, regulamentado pela Anatel em fevereiro, gerou um imbróglio no mercado das operadoras de celular após a Claro ter obtido liminar junto à Justiça de São Paulo impedindo a publicidade sobre bloqueio de celulares.
Na ação, que é contra a ADN Tecnologia de Sistemas, empresa de Salvador que presta serviços de Tecnologia de Informação, a operadora conseguiu ainda retirar do ar o site Movimento Bloqueio Não.
Enquanto a ADN recorre da decisão na Justiça paulistana, a Oi, que ainda não está no mercado paulista, anunciou que está desbloqueando uma série de aparelhos, de qualquer operadora, em São Paulo e nos estados em que atua.
A empresa fornece informações detalhadas do assunto no www.oi.com.br/sp. Segundo a assessoria de imprensa da Claro, a operadora não cobra pelo serviço de desbloqueio. “No entanto, esclarece que nos casos em que os aparelhos pré-pagos foram adquiridos pelo usuário com benefícios comerciais (desconto), a solicitação de desbloqueio, antes do término do período de fidelização de 12 meses previsto no contrato, implica no pagamento de multa contratual”, disse a empresa através da assessoria.
A Claro esclarece ainda que seus clientes podem adquirir aparelhos desbloqueados, mas sem qualquer vantagem comercial. Quanto ao processo que corre na Justiça, a operadora informa que “não comenta a questão do desbloqueio ilícito de celulares por entender que a questão está na Justiça, que, aliás, vem dando ganho de causa à operadora”.
Já a ADN recorreu à Justiça de São Paulo contra a iniciativa da Claro por acreditar que a empresa “tenta impedir a divulgação de informações sobre o desbloqueio de aparelhos celulares com a retirada do site Movimento Bloqueio Não do ar”. A companhia informou que, representando o “Movimento Bloqueio Não”, que já conta com mais de 1,5 milhão de adesões, tem convicção de que o desbloqueio gratuito de aparelhos celulares beneficia os consumidores.
Para a ADN, os argumentos apresentados pela Claro à Justiça induzem a interpretações imprecisas sobre o interesse público em relação ao desbloqueio de aparelhos. Através de comunicado, a Oi informou que é contra a iniciativa da operadora Claro. “Como a Oi é a favor da liberdade, não poderia assistir a Claro violando o direito dos usuários à informação sobre o desbloqueio, sem se manifestar a favor dos milhares de usuários de telefonia móvel”.
Para a empresa, que desde 2007 vende somente aparelhos não bloqueados e desbloqueia de graça os aparelhos de seus clientes, o aparelho desbloqueado é muito mais vantajoso. “Esta liberdade exige maior esforço das empresas na prestação de serviços de qualidade, o que acaba beneficiando os usuários em geral”.
por Teresa Levin