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O que a Amazônia ensina para o design

Alexandre Rizzuti

Diretor de design da FutureBrand São Paulo

Nós, designers, aprendemos a buscar referências nos mesmos centros de validação. Olhamos muito para a Europa e para os Estados Unidos enquanto, dentro do Brasil, ainda conhecemos pouco da diversidade visual que produzimos. Quando todo mundo olha para os mesmos lugares, todo mundo começa a criar coisas parecidas.

Estive no DiaTipo Belém, evento dedicado à tipografia, ao design e à cultura visual, que reúne profissionais, estudantes e pesquisadores para discutir e valorizar a produção tipográfica, com destaque para as perspectivas da Amazônia, experiência que me fez perceber que ampliar repertório nem sempre significa olhar mais longe.

Às vezes, significa olhar mais de perto. As tipografias da Amazônia deixam isso evidente: existe muito design antes mesmo de alguém chamar aquilo de design.

Nas ruas de Belém, as letras não nasceram de uma tendência ou de uma referência encontrada em uma tela. Nasceram da necessidade, do comércio, das embarcações, das mãos de quem as pintou e da cultura ao redor delas.

Os abridores de letras mostram a diferença entre consumir uma estética e conhecer a cultura que a produziu.

Essa diferença ficou ainda mais importante num momento em que qualquer linguagem visual pode atravessar o mundo em segundos.

Hoje temos acesso praticamente infinito à forma. Mas o acesso à forma não é acesso ao contexto, e contexto muda tudo.

Não existe design neutro. Toda linguagem visual vem de algum lugar. Até aquilo que aprendemos a enxergar como universal carrega uma cultura e uma história.

Algumas referências apenas se tornaram tão dominantes que deixamos de perceber sua origem e passamos a chamá-las de padrão.

Talvez ampliar nosso repertório também seja questionar o que aprendemos a considerar universal. Mas a resposta não é substituir um padrão por outro. Não existe uma fórmula para uma “estética brasileira”.

A força estética do Brasil está justamente na impossibilidade de reduzi-la a algo único, muito menos a uma linguagem necessariamente vernacular, artesanal ou imperfeita.

Nosso repertório pode gerar letras pintadas à mão, mas também motion, 3D, design procedural e novas linguagens que ainda nem existem.

Olhar para as nossas origens não significa criar olhando para trás. Focar mais de perto também não termina nas nossas fronteiras.

No DiaTipo, o encontro com tipógrafos e letristas do Peru e do México revelou conexões com uma produção latino-americana que ainda ocupa pouco espaço no nosso imaginário diante das referências europeias e norte-americanas.

Não precisamos deixar de olhar para o Hemisfério Norte, mas parar de tratá-lo como centro e todo o resto como referência alternativa.

O design brasileiro já tem técnica e criatividade de sobra.

Talvez o próximo passo seja confiar mais no repertório que temos ao nosso redor para criar referências que não apenas circulem pelo mundo, mas partam daqui.

Porque o Brasil não precisa apenas participar do design global; tem repertório para influenciá-lo.

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