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‘As melhores ideias não nascem do desejo de ganhar prêmios’, diz presidente do El Ojo de Iberoamérica

Santiago Sarmiento fala sobre as novidades deste ano e analisa o desempenho do Brasil e de outros mercados latino-americanos
Santiago Sarmiento, presidente do LatinSpots e do Festival El Ojo de Iberoamérica | Imagem: Divulgação

Criado para reconhecer e dar protagonismo ao talento latino, o Festival El Ojo de Iberoamérica chega à sua 29ª edição, que será realizada de 11 a 13 de novembro, em Buenos Aires, na Argentina. Em entrevista ao propmark, Santiago Sarmiento, presidente do festival, fala sobre as novidades deste ano e analisa o desempenho do Brasil e de outros mercados latino-americanos, além da importância da diversidade cultural para a criatividade da região. Ele também relembra momentos marcantes da trajetória de quase três décadas do evento e destaca o valor dos encontros proporcionados. “Saem cansadas, certamente, mas também cheias de ideias, motivadas, com novos relacionamentos e com muita vontade de fazer coisas. Saem com fome de fazer mais”, afirma, ao comentar como as pessoas deixam o evento após três dias de programação.

Quais novidades o público pode esperar do El Ojo em 2026?
O El Ojo sempre busca evoluir junto com a indústria e, neste ano, temos muitas novidades que refletem as transformações que estamos vivendo. Em primeiro lugar, incorporamos dois novos reconhecimentos. Um deles é o de Melhor Rede Independente da Ibero-América, que surge de uma realidade muito clara: as agências independentes cresceram enormemente em nossa região e muitas delas deixaram de ser apenas agências locais para se transformar em verdadeiras redes nacionais, regionais e até globais. O El Ojo reconhece as agências independentes há muitos anos, mas essa evolução da indústria merecia um novo reconhecimento. Também incorporamos o prêmio de Melhor Produtora de Áudio e Som da Ibero-América. Desde o início do El Ojo, reconhecemos as melhores produtoras audiovisuais, mas o áudio, a música e o design de som desempenham hoje um papel cada vez mais importante na construção das ideias. Queremos reconhecer também as empresas e os talentos que estão impulsionando essa transformação.

E no quadro de jurados?
Neste ano, teremos 20 presidentes de júri liderando mais de 300 profissionais de toda a região. São líderes de agências de redes e holdings, agências independentes, anunciantes e referências da produção audiovisual. E algo especialmente importante para nós é a diversidade de perspectivas: os presidentes representam oito países diferentes e o Brasil terá cinco presidentes de júri, sendo um dos países com maior representação.

Além de premiar as agências e os trabalhos, como o festival reconhece movimentos que fazem evoluir o mercado?
Também continuamos trabalhando para ampliar a diversidade da nossa indústria por meio do Prêmio El Ojo +Mujeres, patrocinado pela Disney, que busca dar visibilidade ao talento feminino e incentivar uma maior presença de mulheres em posições de liderança criativa e na produção audiovisual. O El Ojo também tem uma responsabilidade com a memória da nossa indústria e com aqueles que construíram o caminho que percorremos hoje. Depois da homenagem póstuma que fizemos no ano passado a Washington Olivetto, neste ano entrarão para o Salão de Honra do Talento Latino Fernando Vega Olmos, da Argentina, e Juan Carlos Gómez de la Torre Marquina, do Peru, duas referências que deixaram uma marca profunda na criatividade ibero-americana. Mas tão importante quanto reconhecer aqueles que construíram nossa história é olhar para quem vai construir o futuro. Por isso, continuamos promovendo o Concurso Nuevos Talentos, voltado a jovens profissionais com menos de 30 anos e estudantes, que neste ano poderão trabalhar com dois briefings e apresentar suas ideias até 15 de outubro.

Quais temas ou transformações da indústria devem ganhar mais espaço nas conversas do festival em 2026?
A inteligência artificial já deixou de ser uma novidade. Está se tornando uma ferramenta consolidada da nossa indústria. Mas há algo que, para mim, é fundamental: sem critério humano, a inteligência artificial é apenas uma ferramenta vazia. Acredito que essa tensão entre tecnologia e humanidade vai permear boa parte das conversas: como utilizar as novas ferramentas sem perder o senso crítico, como encontrar novas formas de contar histórias e como voltar a construir conexões verdadeiramente relevantes entre as marcas e as pessoas. Teremos líderes como Mihnea Gheorghiu, Tomás Ostiglia, Luiz Sanches, Luis “Madruga” Enríquez, Fernando Vega Olmos e Marco Giannelli “Pernil”, entre muitos outros, compartilhando não apenas seus trabalhos, mas também suas perguntas sobre os rumos da nossa indústria. Vamos falar de criatividade disruptiva, de vínculos e narrativas, do novo protagonismo das marcas, de produção audiovisual, da beleza de errar, de arriscar e aprender. Porque, para nós, o El Ojo não deveria ser apenas um lugar para encontrar respostas. Também precisa ser um lugar de onde saímos com perguntas melhores.

Quais são suas expectativas para o desempenho do Brasil e dos demais mercados latinos neste ano?
O Brasil sempre nos surpreende. É uma das grandes potências criativas da nossa região e tem algo especialmente difícil de reproduzir: um craft extraordinário combinado com uma cultura absolutamente própria. Mas acredito que um dos fenômenos mais interessantes dos últimos anos é que o talento latino se tornou cada vez mais diverso geograficamente. A grande criatividade da nossa região já não está concentrada apenas no Brasil, na Argentina ou na Espanha. México, Colômbia e Peru se consolidaram muito, e estamos vendo ideias extraordinárias vindas de mercados menores, como Porto Rico, América Central, Equador ou Uruguai. Isso é muito saudável. Quanto mais países forem capazes de expressar criativamente a própria cultura, mais rica e poderosa será a criatividade ibero-americana.

Ainda é possível identificar uma identidade própria da criatividade latina ou a internacionalização tornou essas fronteiras menos evidentes?
Acredito que acontece exatamente o contrário. Quanto mais global se torna nossa indústria, mais valor ganha aquilo que nos diferencia. O que mudou enormemente foi nosso nível de competitividade. Hoje, as melhores ideias da nossa região podem competir de igual para igual em qualquer cenário global. Mas isso não significa abandonar nossa identidade. Nossa força está justamente em nossas culturas, nosso humor, nossa música, nossa sensibilidade e nossa maneira particular de enxergar o mundo. Tomás Ostiglia disse recentemente algo de que gosto muito: “Hoje está na moda ser latino”. E acredito que não seja por acaso. Cada vez mais anunciantes globais procuram agências, produtoras e talentos latino-americanos para pensar suas campanhas. Não porque queiram que imitemos o que é feito em outros lugares, mas porque buscam justamente esse olhar que só nós podemos oferecer.

Leia a íntegra da matéria na edição impressa do dia 02 de novembro.

Vitor Kadooka
Vitor Kadooka
Repórter do propmark
vitor@propmark.com.br

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