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Engenharia e clima

Ricardo Esturaro

Escritor, administrador de empresas e especialista em marketing, estratégia e sustentabilidade

As mudanças climáticas exigem uma redefinição urgente na forma de projetar e construir a infraestrutura urbana e corporativa. Insistir nos padrões tradicionais transforma fábricas, malhas logísticas e escritórios em passivos de alto risco financeiro. Para inverter essa lógica, a transformação precisa começar na reestruturação da formação dos engenheiros.

Esse cenário expõe uma vulnerabilidade dupla no país: uma infraestrutura urbana precária, que não atendeu às demandas do passado e se mostra incapaz de absorver os choques futuros do clima. Cidades, malhas viárias e plantas industriais precisam se readequar para enfrentar eventos extremos.

Afinal, quando temporais paralisam centros urbanos e produtivos, o prejuízo se espalha por toda a cadeia logística. O impacto real ficou evidente quando um evento climático destruiu parte da fábrica da Toyota em Porto Feliz, em 2025. O episódio interrompeu a montagem, travou o escoamento, desabasteceu concessionárias e gerou perdas bilionárias.

O risco financeiro cresce com a ineficiência na execução das obras. Embora existam métodos modernos de construção, a adoção esbarra em burocracia, custos iniciais e aversão à inovação. Dados da Pesquisa Anual da Indústria da Construção do IBGE mostram o tamanho do problema.

O setor utiliza cerca de 8% a mais de material do que o necessário, com perdas de até 80% em insumos como massa fina e mais de 25% em tinta e tijolos, acumulando desperdícios gerais de até 40% nas obras do país. O custo dessa ineficiência é repassado diretamente para o mercado, reduzindo as margens das empresas e encarecendo o produto final para o consumidor.

Superar esse obstáculo exige alinhar a atuação do engenheiro às reais necessidades das empresas e à nova realidade do clima. Enquanto a Noruega lidera em soluções sustentáveis e forma quase o dobro de engenheiros por habitante, o Brasil perde profissionais qualificados para o setor financeiro por falta de absorção na indústria. Atualizar a grade acadêmica é o caminho para ampliar o mercado a esses profissionais, reter esses talentos e gerar especialistas capazes de criar valor para os negócios.

Essa formação moderna exige trocar o modelo construtivo tradicional pela lógica da economia circular. Na prática, isso significa integrar a infraestrutura física a soluções ambientais eficientes e metodologias de projeto que permitam o reaproveitamento integral dos materiais ao fim do ciclo de vida das edificações. Tratar prédios e fábricas como reservatórios de matérias-primas futuras reduz custos operacionais e elimina o desperdício.

Para o ambiente corporativo, essa nova engenharia gera impacto direto em três frentes. A primeira é a mitigação de riscos, evitando que ativos vulneráveis virem prejuízo no balanço. A segunda é a inovação em infraestrutura adaptativa, com sistemas de drenagem eficientes, pavimentos inteligentes e soluções térmicas. A terceira é a criação de novas categorias de produtos, oferecendo alternativas sustentáveis, práticas e viáveis financeiramente para o mercado consumidor.

A transição ambiental é um motor potente para novos negócios. Para o mercado de comunicação, agências e consultorias, essa transformação abre um campo fértil para o posicionamento de marcas, o lançamento de tecnologias limpas e o desenvolvimento de novos produtos.

No entanto, o gargalo da inovação sustentável não está na falta de capital ou de demanda, mas na escassez de engenheiros preparados para essa nova realidade. O mercado depende, antes de tudo, da transformação na sala de aula nas universidades. Como em quase todos os grandes desafios do país, a resposta começa na educação.

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