Embora 94% dos profissionais da indústria da comunicação considerem a diversidade e a inclusão relevantes para o sucesso das empresas, apenas 25% avaliam que o setor avançou muito nos últimos anos. O dado faz parte da terceira edição do Censo da Diversidade na Indústria da Comunicação, que revela diferenças na representatividade de grupos sociais e aponta desafios para a inclusão no mercado.
O levantamento foi realizado pelo Observatório da Diversidade na Comunicação (ODC), em parceria com o instituto Quantas, com a participação das associações Abap, Abracom, Ampro, Fenapro e Sinapro-SP. Ao todo, 2.908 profissionais de 16 estados brasileiros responderam à pesquisa entre julho e setembro de 2026.
Entre os entrevistados, 76% acreditam que a indústria avançou em diversidade e inclusão nos últimos anos, sendo que 51% consideram que o avanço foi pequeno. Por outro lado, 14% avaliam que houve retrocesso.
A percepção também varia conforme o perfil dos profissionais. Entre as pessoas negras, 20% acreditam que o setor retrocedeu em diversidade e inclusão, percentual que cai para 12% entre profissionais brancos e de outras raças. Já entre profissionais não heterossexuais, 25% identificam retrocesso, ante 10% dos heterossexuais.
Quando questionados sobre os principais desafios para ampliar a diversidade, 25% apontam a necessidade de aumentar a representatividade em cargos de liderança, seguidos pela garantia de oportunidades de crescimento para profissionais diversos (24%) e pela transformação de compromissos em ações concretas e contínuas (22%). A ampliação da diversidade nas contratações foi mencionada por 8% dos respondentes.
Representatividade nos cargos
Os resultados mostram que 66% dos profissionais da indústria da comunicação são brancos, enquanto 31% são negros, considerando pessoas pretas e pardas. O percentual contrasta com os dados do Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segundo o qual pessoas negras representam 56% da população brasileira.
A diferença aumenta conforme os cargos avançam na hierarquia. Entre os profissionais sem cargos de liderança, 38% são negros, percentual que cai para 22% na gerência, 16% na diretoria e 9% no C-level.
A desigualdade também aparece no cruzamento entre gênero e raça. Enquanto homens brancos representam 20% dos profissionais sem cargos de liderança e chegam a 50% no C-level, as mulheres negras fazem o caminho inverso, passando de 24% para 5%. Entre os homens negros, a participação também diminui, de 14% para 3%.
No recorte de gênero, as mulheres representam 64% dos profissionais da indústria e ocupam 70% dos cargos de gerência e 62% da diretoria. No entanto, sua participação cai para 46% no C-level, onde os homens são maioria, com 54%.
Em relação à diversidade sexual, 30% dos profissionais se identificam como gays, lésbicas, bissexuais, pansexuais ou de outras orientações não heterossexuais. A proporção é maior entre os mais jovens: 44% dos profissionais de 18 a 24 anos pertencem a esse grupo, percentual que diminui para 4% entre aqueles com 50 anos ou mais.
A diferença também aparece nos cargos de liderança. Profissionais não heterossexuais representam 33% dos trabalhadores sem cargos de liderança, 27% da gerência, 24% da diretoria e 9% do C-level. O estudo também identificou que 1,5% dos respondentes são pessoas transgênero, sem registros desse grupo entre os 97 profissionais do C-level entrevistados.
Mudanças no levantamento
Nesta edição, o estudo ampliou sua abrangência para além das agências de publicidade, incluindo segmentos como assessorias de imprensa, comunicação interna, marketing promocional, marketing de influência e produtoras de conteúdo. Outra mudança foi a coleta de respostas diretamente dos profissionais, por meio de um questionário anônimo, em vez de utilizar informações fornecidas pelos departamentos de recursos humanos das empresas.
Na comparação com as edições anteriores, a participação de profissionais negros nas agências de publicidade passou de 30%, em 2023 e 2024, para 33% em 2026. O levantamento, no entanto, ressalta que as mudanças metodológicas exigem cautela na interpretação dos resultados, já que as diferenças não representam necessariamente avanços na diversidade do setor.



