Maiara Garbin, sócia & COO da Mudah
Eu cresci vendo Copa do Mundo do jeito mais clássico possível: TV ligada, sala cheia e a sensação de que todo mundo estava assistindo à mesma coisa, ao mesmo tempo. Era um evento coletivo, quase ritualístico. A transmissão era o centro, e tudo acontecia ao redor dela.
Anos depois, o digital entrou em campo como segunda tela. Um espaço para comentar o jogo em tempo real, dividir opiniões e reagir junto. Mas esse papel evoluiu. E evoluiu rápido. Hoje, a segunda tela já não é apenas o digital em si. Ela tem rosto, linguagem e audiência própria. São os influenciadores. E isso muda profundamente a forma como a gente vive a Copa.
Não é mais sobre abrir uma rede social para ver o que estão falando. É sobre ir direto em alguém. Aquela pessoa que você sabe que vai traduzir o jogo do seu jeito, com repertório, sensibilidade e linguagem. É quem solta o meme primeiro, faz a leitura mais afiada, inspira o look da torcida, simplifica a tática ou entrega o react que resume exatamente o sentimento coletivo.
A segunda tela deixou de ser um lugar. Virou curadoria. Virou gente. Na prática, os creators deixaram de ser complemento e passaram a ocupar uma posição central na experiência. E essa dinâmica já não acontece só da tela para fora. Cada vez mais, eles estão dentro do próprio evento. As detentoras de direitos entenderam isso rápido. Nas últimas edições, passaram a credenciar e levar influenciadores para cobrir os jogos in loco, muitas vezes em número comparável, ou até superior, ao de jornalistas.
Não é um detalhe operacional. É uma transformação estrutural. Quando o creator ocupa o espaço físico da cobertura, ele não está apenas reagindo ao jogo. Ele passa a construir o olhar sobre ele. Vive o bastidor, acessa espaços antes restritos e traduz tudo em tempo real para uma audiência que confia na sua leitura. A segunda tela deixa de ser coadjuvante. Em muitos momentos, assume o protagonismo. Nesse cenário, o digital deixa de ser apenas meio e vira linguagem de influência.
Estar online já não diferencia ninguém. O diferencial está em dar significado ao que acontece, conectando repertório, contexto e comunidade. É exatamente isso que os influenciadores fazem. Não se trata só de alcance. Trata-se de afinidade. De transformar audiência em vínculo.
A Copa, então, se expande. Deixa de ser um evento esportivo e vira um território de cultura digital. Um espaço onde futebol encontra moda, gastronomia, humor e comportamento. Tem creator ensinando receita para o dia de jogo. Outro sugerindo looks. Outro explicando tática de forma simples. E outro transformando cada lance em conteúdo compartilhável em segundos. É mais fragmentado, sem dúvida. Mas também mais rico, mais diverso e, principalmente, mais contínuo.
Porque a velocidade virou parte da experiência. A cultura digital não espera o apito final. O que acontece em campo ganha novas leituras imediatamente. Muitas vezes, a conversa mais interessante não está na transmissão, mas na forma como ela é reinterpretada minutos depois. É esse fluxo que mantém a Copa viva muito além dos 90 minutos. Para as marcas, isso não é só tendência. É uma nova forma de atuação.
Não basta mais estar na Copa do jeito tradicional. A presença precisa acontecer dentro dessas narrativas, ao lado de quem já tem atenção e confiança. Isso exige menos controle e mais colaboração real. Exige entender o creator como parte estratégica da construção de significado. Mais do que escolher influenciadores, é sobre cocriar com eles. Reconhecer que cada creator é, ao mesmo tempo, canal, editor e intérprete do seu tempo. E que o impacto de uma ação não está só na visibilidade, mas na capacidade de entrar, com naturalidade, em conversas que já estão acontecendo.
No fim, é sobre conexão. Sobre entender que a atenção não está mais concentrada em um único lugar, mas distribuída em diferentes pontos que se conectam. E que são as pessoas que organizam essa experiência e definem o que realmente importa. A Copa dos influenciadores não substitui a transmissão. Ela amplia. E amplia tanto que, em muitos momentos, é ali que a experiência ganha forma. Se antes a gente assistia ao jogo e corria para o digital para comentar, hoje a gente assiste com os influenciadores. E, muitas vezes, é a partir deles que o jogo continua existindo. A segunda tela agora tem @. E é ela que dita o ritmo dessa Copa.
Imagem do Topo: Divulgação