Katy Miranda, head of design e AI products da Ruler Studio

Sinto falta de coisas que (talvez) a geração Z reconheça em um filme cult antigo: a expectativa de levar um VHS da locadora na sexta-feira e torcer para ele ser razoavelmente bom; o ritual de virar o disco para ouvir o lado B ou a paciência quase meditativa de esperar uma foto ser revelada para saber se finalmente alguém saiu de olho aberto.

Naquelas ocasiões, os sons, as imagens e o tempo tinham textura. Hoje, apesar de admirar a riqueza de possibilidades, tudo parece uma linha reta, infinita e perfeitamente lisa — o que é ótimo para a escala e usabilidade de sistemas, mas péssimo para a nossa humanidade imperfeita.

Minha trajetória começou na publicidade e desaguou no design digital. Passei anos ouvindo que “a criatividade precisa de tempo para maturar”. Mas, na prática, o que vemos é uma corrida armamentista de ferramentas: se a IA faz em segundos e o software acelera o processo, por que você ainda precisa de três dias para pensar?

É aqui que o filósofo Byung-Chul Han me dá um “sacode” necessário em sua ‘Sociedade do cansaço’. Ele discorre sobre como deixamos de ser explorados por chefias para nos tornarmos os próprios carrascos na “sociedade do desempenho”, ansiando por produtividade até no descanso. O ócio virou um pecado em busca de redenção, e a pausa virou perda de tempo.

Embora eu veja diariamente que modelos de linguagem avançados
demonstram capacidades cognitivas impressionantes, a tecnologia ainda
não tem consciência; nós é que precisamos ter. Não se trata de virar as costas para a evolução tecnológica — até porque eu adoro um bom pixel e algumas das facilidades de que usufruímos —, mas de ser gentil consigo mesma e entender que a velocidade da máquina não é a velocidade do pensamento humano. Mais do que nunca, precisamos do que a artista Jenny Odell chama de “resistência à economia da atenção”, esse ato revolucionário de redirecionar nosso olhar para o que não gera engajamento instantâneo, mas gera vida.

Para mim, o segredo de conviver bem com o digital é, ironicamente, manter um pé no analógico e naquilo que originou a técnica: o ‘fazer manual’. É encontrar o que nos alimenta de verdade. Pode ser o tempo gasto em uma pintura que demora dias para ganhar forma, a leitura da primeira página de um livro físico em uma livraria barulhenta ou o simples ato de olhar para o céu antes de decidir se leva o guarda-chuva, em vez de consultar a assistente virtual.

Essas pequenas “fugas” são o combustível para a alma florescer e se encontrar. Sem pausa, não há contraste e, sem contraste, o design da vida fica sem graça, chapado, sem profundidade. A velocidade tecnológica só deixa de ser aflitiva quando descobrimos para onde voltar. O meu “voltar” é para o toque, para o imperfeito, para o que é lento e se faz presente.

Antes de seguir para o próximo texto, por favor, pause. Mesmo que às vezes pareça o contrário, o mundo não vai acabar se você demorar cinco minutos a mais para divagar. Na verdade, talvez ele comece a fazer muito mais sentido.

Imagem do Topo: Divulgação