Flavio Waiteman, sócio e CCO da Tech&Soul

A Nasa conseguiu algo inédito nesse século. Repetir um feito científico realizado pela última vez no século passado, em 1972: levar astronautas para uma órbita lunar e trazê-los de volta em segurança à Terra.

O projeto Artemis (SLS/Orion) está sendo desenvolvido há 15 anos ao custo de 2 bilhões de dólares por lançamento, para repetir algo já feito na década de 1960 (projeto Apollo), ao custo de 360 milhões de dólares (mais ou menos esses mesmos 2 bilhões em dólares atualizados). Em linhas gerais simplificadas, o ser humano fez algo incrível, deixou de fazer e com o tempo esqueceu como se fazia. Investiu novamente tempo, talento e dinheiro para repetir algo já alcançado.

Vale para foguetes, pirâmides, desenvolvimento de vacinas e qualquer atividade que deixamos de dar atenção. Vale para comunicação, por exemplo. As marcas que esquecem como é fazer por deixarem de acreditar em comunicação gastam muito mais e perdem tempo. Se esquecemos como se faz, toda a evolução e a inovação se perdem.

‘For all mankind’ é uma série na Apple TV em sua quarta temporada que conta a história da corrida espacial se ela não tivesse parado repentinamente. As duas primeiras temporadas são imperdíveis. O fato é que o ser humano para de evoluir quando se desinteressa por algo. E, depois, não se lembra sequer como aquela obra de engenharia humana foi concebida. Hoje grande parte do trabalho da Nasa é fazer engenharia reversa do que foi criado nos anos 1940 e 1950 para, então, poder evoluir.

Nenhum egípcio sabe exatamente como foram criadas as pirâmides. Uma obra tão descomunal de engenharia não teve sequer sua história contada de geração em geração. Comunicação lida com seres humanos que também estão em constante evolução. Se vai continuar evoluindo ou se vai esquecer de tudo o que o trouxe até aqui, veremos. Pesquisas científicas nos avisam sobre a diminuição cognitiva geral devido à profusão das telas.

O scroll é o novo zap e a atenção é fragmentada em milhares de momentos diários monetizáveis. E monetizáveis por empresas sem nenhum vínculo com o ser humano. Nenhuma responsabilidade. Em meio a tanta informação, hoje não há anticorpos efetivos sequer para identificar se algo é real ou inventado.

O senso crítico e o raciocínio precisam voltar a ser utilizados de maneira urgente, antes que caiam em desuso e esqueçamos como chegamos até aqui. Dizem que os primeiros reis da Inglaterra em 900 depois de Cristo encontraram ruínas de casas de banho com colunas e pinturas sofisticadíssimas de um povo que lá viveu mil e quinhentos anos antes deles. Eles não sabiam quem eram. Hoje sabemos que se tratava dos romanos. O que não se usa, se esquece.

Imagem do Topo: Divulgação