As fábulas, hoje em dia esquecidas e subestimadas, figuram entre as formas de comunicação mais poderosas já criadas, desempenhando papel decisivo na formação ética e intelectual das pessoas.
Todas elas escritas com um jeitão em comum. Sempre aconteciam, não ali onde o escritor morava, mas num reino muito, muito, muito distante. Afinal, o autor poderia perder a cabeça ou ser banido do seu país, se nomeasse diretamente o personagem que inspirou o texto. Por isso, além de morarem longe, os protagonistas eram reis, bobos, sultões, cavaleiros, mágicos, bruxas e crianças. As crianças sempre levavam a pior. As fábulas eram uma maneira de educar novas gerações. Prepará-las para o mundo.
Elas moldavam os comportamentos de quem estava aprendendo a viver, mas também implementavam novos conceitos para os adultos. Ao ler a fábula para as crianças, os adultos também se davam conta de outros aspectos da vida e ganhavam aprendizados. Havia a identificação óbvia com atitudes de personagens. Sobretudo, as fábulas ajudavam as pessoas a entender o momento presente e sobreviver a ele.
Quanto a sua atratividade como peça de comunicação, o arco narrativo das fábulas ambicionava manter a atenção da audiência utilizando ferramentas de atenção como perigo, ação, aventura, vingança, inteligência e coragem. E terminava sempre com uma mensagem valiosa para o contexto da época.
Mas com um particular: a mensagem a ser extraída nunca era explícita, ela precisava ser entendida. Quem ouvia a história encontrava na mágica das palavras esse aprendizado. Como uma descoberta. Era a tal da “moral da história”.
Um ótimo exemplo é João e Maria, escrita pelos Irmãos Grimm, que usavam como pano de fundo os problemas reais da época, sobretudo fome, pobreza e abandono infantil. Ao mostrar crianças deixadas na floresta, enfrentando perigos como a bruxa que devorava crianças e a maneira de sobreviver a isso com astúcia e união.
A fábula ajudava as pessoas a entenderem os perigos da escassez, a vulnerabilidade das crianças e a obrigação dos adultos em protegê-las.
O Jacob e o Wilhem eram craques! Entendiam que, a depender de como a história fosse narrada, os corações se fechariam. Sim, a gente ouve com o coração primeiro. O que ele permite vai ao cérebro. O que o coração rejeita é rotulado e descartado imediatamente. Ou fica ali produzindo o seu efeito. Tem gente muito boa com coração perdido.
A vantagem em dizer sem falar e fazer entender sem mostrar é uma arte que faz falta hoje.
Adoro comunicação, independentemente do formato em que surja. Novas fábulas podem vir a ajudar o mundo nesse momento estranho que estamos passando. Claramente moldado por comunicação que entra pelo ouvido (direito ou esquerdo) ou olhos (também esquerdo e direito) e é interpretado pelo coração para ser descartado ou aceito. O cérebro só procura argumentos para justificar aquilo que a pessoa é realmente dentro de si.
Alguns títulos que pensei para as novas fábulas, em formato de livros de aeroporto. Daqueles que os pais em viagem de negócios compram para os filhos. Em papel mesmo. E os lê à noite para as crianças, enquanto o celular está numa gaveta longe do quarto.
“O menino e o rei algotimo”, “Ana e a tela hipnótica”, “A raposa e o código”, “Lia e a cobra Like”, “O lenhador e a máquina que decide”, “Bruno e a aldeia dos perfis vazios”. E todos, claro, acontecendo num reino muito, muito, muito distante.
Flavio Waiteman é sócio e CCO da Tech&Soul
flavio.waiteman@techandsoul.com.br