Stalimir Vieira, diretor da Base de Marketing
A Rádio Eldorado vai acabar. Será que é porque os melhores ouvintes acabaram? Ou será que eles se tornaram tão poucos, que ficaram desinteressantes para os anunciantes?
O fato é que a chamada audiência qualificada perdeu completamente a relevância para os investimentos em mídia. Tenho me queixado aqui de vez em quando de não ver um anúncio da Honda ou do Chivas na Piauí. São marcas que eu consumo, e que cresceriam ainda mais no meu conceito se ajudassem a manter momentos de preciosa leitura.
Aliás, se a Piauí não tivesse um Mecenas e um grupo aguerrido de assinantes, já teria ido para o beleléu. Outro dia, comentei que me mantenho como cliente da Honda, só por causa da primeira experiência que tive com o produto, há 16 anos.
Se dependesse de ser alcançado por seus anúncios, hoje, não teria a menor ideia do que a marca anda fazendo. Um bom anúncio de página inteira da Toyota, na Piauí, provavelmente, me balançaria. Mas o fato relevante e triste é que vão terminar com a Eldorado como se ela não valesse nada. Porque o “mercado” pensa assim: se não “escala”, não vale a pena. E o que é que escala, normalmente? Preciso falar?
O fim da Eldorado não é o fim do rádio, porque o meio continua aí. É, na verdade, mais uma derrota do bom gosto e da qualidade cultural, como apelo de audiência. Antigamente, as grandes marcas tinham uma verba institucional, que ajudava a sustentar meios e programações voltados a contribuir com a elevação do nível da informação oferecida ao brasileiro, através da mídia. Onde foi parar essa verba tão importante? Foi pro varejo ordinário do digital? Durante anos, a Varig manteve, no Brasil inteiro, uma seleção musical primorosa, patrocinando em diversas emissoras, o programa ‘Varig dona da noite’. Por desmandos e abusos, a companhia quebrou, mas a sua imagem institucional continua viva e admirada até hoje.
Nenhuma outra empresa aérea brasileira conseguiu repetir a façanha. Todas são mal avaliadas. E o que fazem contra isso, em termos de comunicação? Nada. Preferem ficar duelando valores de tarifas com os clientes nas plataformas de venda de passagens. A Eldorado é vítima desse mal que assola o mercado, que fere e mata toda profissão exercida com amor, dedicação, cuidado, pesquisa e respeito por mentes educadas.
A urgência estúpida em torno de índices que atendam metas de remuneração do capital, como prioridade, trata toda essa obra, construída com delicadeza e esmero, como entulho imprestável. Eu atendi a Eldorado na minha agência, eu criei o slogan ‘A rádio dos melhores ouvintes’, eu sabia do que estava falando, eu vi o João Lara Mesquita trabalhando. Era moldado para aquela tarefa, de transformar uma emissora de rádio brasileira numa referência comparável com o que melhor se faz em rádio no mundo civilizado.
O fim da Eldorado não é apenas “culpa” dos novos padrões de consumo de mídia, é consequência dos novos padrões de pensar os negócios. Esse jeito estúpido, que aposta no efêmero escalável, que não tem compromisso em gerar nada, além de dinheiro, rápido.
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