O que você recusa, te ressalta

Por Flavio Waiteman, sócio e CCO da Tech&Soul

Erling Haaland ajudou a eliminar o Brasil de maneira categórica, disse não à soberba, que seria até aceitável em um jovem vencedor, e foi gentil ao afirmar, genuinamente, que o Brasil deveria ir para a final, pois é o país do futebol. Um gigante gentil.

Craque da França, Mbappé se recusou a fazer publicidade de jogos pelo celular pelo simples fato de ver muita gente do bairro dele perder a vida com isso. Ameaçou não jogar pela seleção. Ele se impôs. Não fez dancinha.

Em uma época de excesso de informação, fazer um dia off por semana pode equilibrar a saúde mental. Dizem.

Recusar-se a usar a IA antes de ter uma ideia, e só usá-la como ferramenta após obter a ideia de maneira cognitiva, pode ser um grande diferencial. Já está sendo, na verdade.

Nem todas as laranjas que jogam para você precisam ser apanhadas, levando em consideração o papel metafórico das laranjas como mensagens que você recebe. A escassez pode ajudar muito.

Gentileza está em falta? Seja gentil. Palavras justas e propositivas são raras? Profira-as. Cavalheirismo não é mais usual? Pratique.

A coisa escassa é o diferencial hoje. O que você não diz, diz mais sobre você. E o que você comenta diz tudo sobre o que você é. E não sobre o que ou quem você está comentando.

Palavras são as pedras mais certeiras que existem. E hoje se fala demais, como mostra o Enzo, jogador argentino que fez o gesto do Topo Gigio, com as mãos criando o efeito de grandes orelhas, após um gol maravilhoso contra a Inglaterra.

Vale para a vida e para a comunicação. Toda marca e toda pessoa têm uma história, mas as atitudes contam tanto quanto as palavras. A escassez pode ser benéfica. Veja o próprio festival de Cannes, que, numa crise reputacional sem precedentes, escasseia e encarece ainda mais o seu festival. Dobrando a aposta, contando a todos o quanto a sua escassez é foco da indústria.

A marca de roupa mais bacana que existe hoje, e uma das mais caras, se recusa a falar sobre si ou ostentar-se. Tanto assim, que vou evitar dizer a sua marca aqui, mas você e eu sabemos de qual se trata. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, não deveria mesmo saber. E isso vende.

Ao lado da Fontana de Trevi, com 10 mil turistas por hora se acotovelando para uma foto e um arremesso de moeda, existe um gazebo florido com um banco de pedra embaixo dele.

Ali sentou-se o imperador Augusto, dois mil anos atrás, quando terminou a obra de Roma, o aqueduto, que levou água para aquela região da cidade. Você pode sentar-se ali. Não há filas. Ninguém arremessa moedas ou coisa do tipo.

Existem marcas que estão em um frenesi insano para surfar todas as ondas, inclusive as artificiais, sem olhar para a própria essência. A comunicação nunca precisou tanto da psicanálise. Estabelecer valores, ser coerente e perseverante neles podem fazer a diferença.

A marca americana de materiais esportivos Columbia fez um anúncio de que doaria todo o seu patrimônio de 3 bilhões de dólares para quem tirasse uma foto do fim da Terra (sobre a teoria do mundo plano). O desafio se chamou: Expedição Impossível.

O dono, ao fazer o compromisso público de dar tudo o que tem em nome do bom senso, fez algo simples, barato e ganhou um espaço no meu bolso, pois falou com meu coração primeiro.

Essa marca meio que falou comigo. Com poucas palavras.

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