Por Stalimir Vieira, diretor da Base de Marketing
Imagine você, com 20 e poucos anos, recém-chegado de Porto Alegre, recebendo a honra de ter um assento na DPZ, quando cai na sua mesa o primeiro pedido de um anúncio.
O mundo vivia o auge de uma crise do petróleo, provocada por mais uma guerra no Oriente Médio. O feriadão de Carnaval se aproximava e a GM pediu um anúncio, recomendando economia de combustível.
Pensei, enquanto respirava fundo, tentando controlar a ansiedade, naquela estreia no templo sagrado da criação publicitária: Oriente Médio, maior polo produtor de petróleo do mundo; Brasil, dependente da importação do combustível cada vez mais caro; o período a ser abordado, o feriadão de Carnaval.
Joguei todos esses dados na minha IN. De repente, a mente se ilumina: o inconsciente transbordava para o consciente, cenas dos bailes de Carnaval transmitidos nas madrugadas pela Band.
E lá estavam eles, como sempre: homens com suas indefectíveis fantasias de sheiks, usando óculos escuros de grife.
O anúncio estava pronto. Foi só achar a foto e colocar o título: ‘Neste carnaval, não confunda fantasia com realidade: economize combustível’.
O Petit e o Washington viram e acharam ótimo. E foram cuidar da vida, porque esse era o cotidiano deles, fazer e aprovar bons anúncios.
O cliente reprovou o anúncio. Não queria mexer com os árabes, ainda mais assim, levando a coisa na brincadeira.
Mas a reprovação não tinha a menor importância para a expectativa da agência com relação a mim. Eu estava lá para se aprovado pelo Petit e pelo
Washington, pela DPZ, e não pelos clientes.
O segundo anúncio era para o quibe Sadia, que prometia seguir rigorosamente as receitas do Oriente. Na hora, lembrei que, na minha infância, existia um vinho que assinava ‘Feito como manda a Bíblia’.
Então, tasquei sobre a foto dos quibes ‘Feito como manda o Alcorão’. O Petit e o Washington adoraram. O Murilo Felisberto gargalhava (provavelmente porque sabia que ia dar merda).
Mas um atendimento, minimamente sensato, resolveu, antes de ir ao cliente, mostrar ao Roberto Dualibi, que vetou na hora.
Embora cristão, Duailibi, descendente de libaneses, sabia do perigo de brincar com essas coisas.
O terceiro anúncio era para a Seagrams, em homenagem ao aniversário de Sorocaba, sede da fábrica. Como o nome Seagrams não me inspirava nada, perguntei ao atendimento que produto faziam lá.
Ao saber que era o uísque Drurys, o anúncio saiu na hora: sobre uma flamante garrafa de Drurys, escrevi ‘Sorocabano legítimo’. Podia haver homenagem maior?
Mais uma aprovação festiva dos meus chefes. E, horas depois, um belo esporro do cliente no pobre do atendimento.
Os caras passam a vida tentando parecer escoceses e a agência propõe um negócio desses?!
Ou seja, os meus três primeiros anúncios na
DPZ foram todos reprovados, um deles nem foi ao cliente.
Mas foi por causa destes mesmos anúncios que continuei trabalhando lá enquanto eu quis.
Para o Duailibi, o Petit e o Zaragoza, você valia pelo anúncio criativo que propunha, e não pelo anúncio medíocre que aprovava.



