Por Isabela Rozental, cofundadora e diretora criativa da Atypique
A gente cresce achando que precisa escolher um caminho só. Uma área. Um título. Uma especialização que organize a forma como o mundo enxerga a gente. Como se aprofundar fosse, necessariamente, limitar. Durante muito tempo, essa lógica fez sentido. Era mais fácil de explicar. De vender. De justificar em reunião, em currículo, em resposta rápida quando alguém pergunta o que você faz. Até que ela começa a dar sinais de esgotamento.
Na Design Week de Milão, no meio de uma conversa que não tinha nenhuma pretensão de ser importante, um amigo falou sobre três trabalhos completamente diferentes que desenvolvia ao mesmo tempo. Transitava entre eles com uma naturalidade que me pegou de surpresa. Nenhum parecia um desvio. Todos faziam sentido juntos.
Aquilo ficou comigo. Por muito tempo, ser interdisciplinar foi associado à falta de foco. Eu sei disso de perto.
Logo que me formei, meu pai me ligou pedindo para eu abrir o e-mail que tinha acabado de mandar. Era difícil pra ele falar por telefone. O texto listava cinco coisas que eu fazia ao mesmo tempo: pintava roupas para uma coleção de upcycling, tinha uma empresa de móveis recém-aberta, escrevia um livro. Ele dizia que me amava e perguntava qual seria o meu foco.
Paniquei. Não escolher parecia imaturidade. Não me definir parecia um problema que eu precisava solucionar rápido, antes que alguém percebesse. O que tenho visto, e vivido, a partir daí, é o oposto. Na Atypique, agência que cofundei e em que atuo como diretora criativa, percebo cada vez mais que os projetos mais interessantes não nascem de uma única linguagem. Eles surgem justamente do encontro entre diferentes repertórios, experiências e formatos. Do cruzamento entre arquitetura, branding, cenografia, conteúdo, entretenimento, gastronomia e experiência.
Fica difícil separar onde termina a arquitetura e começa o branding. Onde a cenografia deixa de ser suporte e passa a ser experiência. Onde o conteúdo vira espaço. Onde uma ideia deixa de ser conceito e passa a ser vivida. As fronteiras continuam existindo. Só estão mais flexíveis. Hoje, vejo isso acontecer em diferentes escalas.
Em um projeto de Carnaval que conversa com sustentabilidade e moda. Em um café que nasce de uma plataforma feminina e se transforma em ponto de encontro. Em ativações que misturam marca, comunidade e experiência física em um mesmo espaço. Trabalhar de forma interdisciplinar não é fazer tudo ao mesmo tempo. Não é acumular. Não é diluir. É saber conectar. Transitar entre universos sem perder profundidade. Construir um olhar que não precisa de uma única lente para existir. Isso exige repertório, curiosidade ativa e interesse genuíno por coisas que, à primeira vista, parecem estar fora do seu campo. Exige disposição para aprender e, mais do que isso, para desaprender quando necessário.
Exige escuta. E interesse genuíno por gente.
Eu sou fascinada por pessoas. Sempre fui. Ninguém constrói sozinho um pensamento realmente expandido. Ele se forma na troca, na convivência com outras áreas, outras formas de ver o mundo que talvez você nunca acessasse sozinho.
Durante muito tempo, o mercado pediu especialização como garantia de qualidade. Ela continua sendo importante, mas talvez o diferencial hoje esteja em outra capacidade: integrar. Criar pontes. Enxergar relações onde antes só existiam categorias separadas.
As experiências que mais marcam não são as que seguem uma lógica isolada. São as que combinam camadas. As que misturam linguagem, espaço, narrativa e gente de um jeito que dificilmente caberia dentro de uma única definição.
A caixinha não quebrou. Mas parece pequena demais para o mundo que fomos construindo. E talvez o desafio agora não seja mais escolher um único lugar para ficar. Seja aprender a transitar entre vários sem perder o que é essencial no caminho.



